Sabrina Noivas 28
Snowdrops For a Bride

''Voc precisa de 1 homem para estar sempre  seu lado!" Quando Steve Galbraith apareceu pedindo para se hospedar na casa de Nairne, ela no pde deixar de notar a aura de infelicidade que o envolvia. Nairne, 1 viva que cuidava de vrios adolescentes problemticos, no tinha tempo a perder com seu hspede, que, apesar de sedutor, era totalmente cnico em relao s mulheres. Mas como se manter imune a 1 homem to fascinante, se quando estava nos braos dele tinha certeza de que eram... almas gmeas?

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1995
Publio original: 1992 Gnero: Romance contemprneo
 Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I

Um vento frio de fevereiro varria toda aquela regio da Esccia. O vento era tanto que os dois pinheiros que ficavam ao lado do porto do cemitrio se vergavam e pareciam que estavam para se quebrar a qualquer momento.
Alheio a tudo, diante de um tmulo, um homem. Steve Galbraith. Alto, cabelos negros e um sobretudo tambm negro, no parecia sentir o vento, nem o frio que fazia. Apenas lia e relia a lpide de granito onde estava escrito:

Hazel Dunbar 1961-1993
Hazel havia falecido h um ano. Com trinta e dois anos de idade.
Steve colocou as mos nos bolsos do sobretudo e sorriu de maneira cnica.
Hazel tinha apenas dezoito quando tudo acontecera. Dezoito anos, quando dera a ele trs semanas de sua vida: vinte e um dias... e uma noite perfeita.
Apenas vinte e um dias. Vinte e um dias e uma noite... Mas tinha sido o tempo necessrio para mudar-lhe toda a vida. E fora ela quem mudara-lhe toda a vida. Fora ela quem o transformara do homem apaixonado, no homem de agora: insensvel, com o corao de pedra.
Quando recentemente soubera da morte de Hazel, tudo o que se passara h tanto tempo viera  tona. dio. Ressentimento. E muita raiva. Raiva pela mulher que o trara.
Lembranas que havia pensado estarem esquecidas para sempre, afloraram com muita fora e fizeram com que Steve a odiasse muito mais. Aquelas lembranas ainda doam. Muito.
	Eu nunca vou lhe perdoar  ele pronunciou as palavras devagar, num tom baixo. Depois voltou a repeti-las bem mais alto:  Eu nunca vou lhe perdoar!
Aquelas palavras saam das entranhas de Steve. O dio que sentia era tanto que ele tremia. Descontrolado, passou a mo pelos cabelos se perguntando o porqu de estar ali diante do tmulo daquela mulher. Na certa no era por respeito. O nome.de Hazel Dunbar jamais rimaria com respeito. Ento, por que no conseguiria conter o impulso e estava ali...?
	Tudo bem com o senhor?
A maciez daquela voz, fez com um intenso tremor per-orresse o corpo de Steve. Pelo jeito ele estava emocional-mente bem pior do que havia imaginado. Quando ouviu aquela pergunta, tivera a sensao que voz viera do tmulo...
Mas a voz no vinha do tmulo, nem pertencia a um fantasma, ele se certificou ao deparar-se com uma mulher ruiva, de olhos azuis, vestida com um conjunto de cala e jaqueta jeans, botas marrons e uma echarpe de l no pescoo. Contra o peito, a mulher segurava um buque de margaridas.
	Tudo bem com o senhor?  ela voltou a perguntar, tentando com um das mos, proteger o rosto contra o vento.
	Tudo bem. Eu estou muito bem. Por qu? Por que eu no deveria estar bem?
	No sei...  que eu o vi olhando atento para o tmulo de Hazel. O senhor a conhecia?
Se ele a conhecia? Mas era claro que no a conhecia. Qual homem, em s conscincia, poderia afirmar que conhecia uma mulher? Ainda mais uma mulher como Hazel Dunbar!
Para evitar qualquer tipo de constrangimento, ou mesmo de aborrecimento, ele arrumou uma outra maneira de responder quela pergunta.
	Me interesso muito por sepulturas antigas. E essa me pareceu bastante interessante.  Agora Steve falava de uma maneira menos agressiva. E para que no corresse nenhum risco, mudou logo de assunto:  Estou pretendendo ficar na cidade por uns dias. Ser que poderia me recomendar um hotel decente?
Steve percebeu que a mulher examinava as roupas caras e os sapatos italianos que usava. Por que estaria fazendo aquela avaliao?
	Bem...  ela finalmente respondeu , em Glencraig o senhor no vai encontrar nenhum hotel, mas a uns quatro quilmetros daqui, seguindo a estrada  direita, tem uma pousada muito agradvel. O nome dela  Heatherview.
	Obrigado.
	De nada. Foi um prazer ajud-lo.
Enquanto ela falava, Steve ficou olhando para as margaridas.
	So para o meu marido. Ele est sepultado neste cemitrio. Tambm foi vtima do mesmo acidente em que Hazel faleceu: um caminho se desgovernou e atingiu vrios pedestres. Meu marido e Hazel morreram instantaneamente. Mais seis pessoas ficaram feridas, entre elas, Hugh, o marido de Hazel. Ele se feriu muito e ficou em coma durante meses, quando veio a falecer.  A mulher apontou uma outra lpide onde se via escrito Hugh Dunbar.  Foi melhor para o Hugh. Se sobrevivesse teria uma vida vegetativa. Mas tenho muito pena de Kilty.
	Kilty?
	Ele  filho de Hazel e Hugh. Pobre menino... Sem irmos, perder o pai e a me assim de repente no  brincadeira. Kilty tem quatorze anos e a vida no est sendo nada fcil para...  A mulher interrompeu a frase.  No sei por que estou lhe contando tudo isso. Voc nem conhecia Hazel. Me desculpe por t-lo deixado a parado nesse frio ouvindo as minhas palavras. Hoje  dia para se ficar trancado em casa. Espero que goste da pousada. Tenha uma boa tarde.
A mulher se afastou.
Mais uma vez Steve olhou para o tmulo. Depois, ergueu a gola do sobretudo, voltou a colocar as mos nos bolsos e seguiu para sada do cemitrio.
Kilty... Algum poderia ter dado um apelido ao garoto. Naquela parte do mundo, os apelidos das crianas tendiam a permanecer para o resto da vida. Mas aquele detalhe no era importante. A nica coisa importante que tinha a fazer era certificar-se se esse tal de Kilty... era... era mesmo seu filho. S isso. Caso se convencesse desse fato, voltaria para Londres e pediria ao seu advogado que mudasse o testamento. Tornaria o garoto seu herdeiro. E ningum precisaria ficar sabendo disso. Nem o garoto. Nem o garoto ficaria sabendo que era o pai dele. No queria envolvimentos emocionais. Em sua vida no existia lugar para famlia, pessoas. Em sua vida no existia lugar para nada.
S os imbecis se deixavam levar pela emoo.
E h muito tempo ele, Steve Galbraith, deixara de ser um imbecil!
Nairne parou diante do tmulo e abraou o buque de margaridas.
	Rory, meu querido, essas flores so para voc. Margaridas. So as primeiras dessa primavera...  Ela sentiu uma imensa vontade de chorar.  Sinto muitas saudades de voc, Rory...
Nairne se casara h sete anos num ms de fevereiro. E durante o tempo que vivera com o marido, conhecera o que era felicidade. No dia do casamento, Rory lhe presenteara com um buque de margaridas, e aquela flor passou a ser para os dois o smbolo da simplicidade, da pureza, do amor que os unia.
	Os garotos j foram para a praia.  A voz dela no passava de um sussurro.  Sabia que finalmente consegui que Kilty fosse para a mesma escola que eles? Consegui tambm convencer Kilty a viajar para a praia. Ser bem melhor para ele. Os garotos viajaram esta manh. Fui me despedir deles. Ainda estava muito escuro... Nessas prximas trs semanas a nossa casa ficar muito silenciosa. J pensou? S eu e a Shadow l dentro?
Nairne continha o soluo que teimava em escapar-lhe da garganta.
	Oh, Rory, como sinto a sua falta... Esse ltimo ano
foi terrvel para mim...

Eu no vou chorar! Me manterei firme! Tenho que ser forte!
Lentamente, Nairne limpou uma lgrima que escorria-lhe pela face.
	Tenho algumas decises a tomar  ela disse numa voz entrecortada pelos soluos que teimava em controlar.  E estou pretendendo tomar essas decises enquanto os garotos estiverem fora. Mas no quero falar sobre isso agora. Quando estiver tudo resolvido, volto aqui e conto tudo para voc.
Nairne foi at uma torneira, encheu um vaso com gua e, depois de arrumar as margaridas dentro dele, o colocou sobre a sepultura. Em seguida, disse baixinho:
	Fique bem, meu querido. Agora eu preciso ir. Kyla e Adam vo jantar l em casa hoje...
Com muito carinho, Nairne acariciou as margaridas, colocou as mos sobre a sepultura do marido e fechou os olhos. Durante alguns minutos ficou naquela posio rezando pela alma de Rory.
Kyla enxaguou uma taa de vinho e comentou:
	Como sempre a sua comida estava perfeita, minha irm. Sempre invejei os assados que faz.
	Mas no existe nenhum segredo para que meus as sados fiquem bons.
	Eu sei, sei...  Kyla sorriu.  Os meus, ou ficam crus, ou assados demais. Mas agora, por favor: deixe que eu acabo que dar um jeito na cozinha. V para sala conversar com o Adam. H sculos vocs dois no se vem. Depois que acabar aqui, vou fazer um caf. Quer que eu sirva algumas bolachinhas?
	Bolachinhas eu no tenho, mas ontem fiz uns pezinhos que esto deliciosos.
	Pezinhos? Que maravilha... Vou servi-los com o caf! Catriona e Kevin vo adorar. Eles j devem estar chegando.
	Mas seus filhos esto vindo para c? Pensei que Molly tivesse ficado tomando conta deles.
	Ela ia ficar, sim, mas apareceu um compromisso de ltima hora. Papai e mame, ento, resolveram lev-los para a igreja e depois os deixariam na aula de catecismo. A professora de catecismo ficou de traz-los at aqui. Pensei que voc soubesse.
	No, eu no estava sabendo.
	Mas deixei um recado na sua secretria eletrnica.
	E mesmo? Engraado... Verifiquei a secretria eletrnica depois que cheguei do cemitrio. No tinha nenhum recado gravado.
	Logo imaginei que tinha ido fazer uma visitinha ao tmulo do Rory...
	Tem certeza que deixou um recado na secretria?
	Mas  claro que sim, Nairne... Voc deve ter mexido em algum boto e desgravado a mensagem.
	No, eu no fiz isso.
	Ento deve ser obra de algum gnomo. Mas algo deve ter acontecido: tenho certeza que lhe deixei uma mensagem.
	Por que ento ser que eu...  As palavras de Nairne foram interrompidas pela campainha.  Quem poder estar a fora? No estava esperando ningum.
	Talvez sejam Catriona e Kevin, mas no os esperava to cedo. Bem, vou ver quem tocou campainha.
Enquanto a irm atendia a porta, Nairne, intrigada, foi verificar a secretria eletrnica. A luzinha vermelha do aparelho no piscava, sinal que nenhuma mensagem fora deixada. Mesmo assim, para certificar-se, ela acionou a mquina. Ali no existia nenhuma mensagem da irm.
	O que ser que aconteceu? Se Kyla disse que me deixou uma mensagem, ela realmente deixou.
Mas quanto aquilo, no existia nada a fazer. A irm e o cunhado estavam ali e seus filhos logo chegariam.
Nairne sorriu ao lembra-se das crianas: Catriona com quatro anos de idade, com os cabelos negros encaracolados era muito ativa. Kevin, de onze anos, era srio, circunspecto e quase no sorria.
Nairne deu um longo suspiro. Famlia... Famlia era algo muito bom. As crianas, seus pais, a irm e o cunhado... Sem eles no teria sobrevivido nesse ltimo ano.
	No eram as crianas  Kyla disse, passando as mos pelos cabelos negros encaracolado iguais ao da filha.  apenas uma pessoa procurando por uma vaga.
	Mas no estamos em temporada.
	Acho que o vento de hoje virou a placa. L fora est escrito Vagas.
	Mas estava escrito: No temos vagas.
	Bem, isso foi antes do vento.
	Ainda bem que o vento parou. J pensou aguentar uma ventania daquelas durante a madrugada? Ia ser terrvel.
	O homem est l fora esperando, Nairne. Ele disse que j percorreu toda a regio e no encontrou vagas. Parece que est tendo um casamento muito importante por aqui.
	Quer dizer que quem est l fora  um homem?
	, sim.  A irm a fitou sem entender direito o espanto de Nairne.
	Um homem alto, moreno, de cabelos lisos e negros?
E com uma voz e um sotaque que mais parece um locutor da BBC de Londres?
	Exatamente. Mas como  que voc sabe?  Eu, hem?
Tem coisas muito estranhas acontecendo nesta casa.
	No tem nada de estanho, no, Kyla.
	Ento como voc me descreveu o homem que est l fora nos mnimos detalhes?
	Bom, os detalhes no foram tanto assim... Mas se quer saber, se for realmente quem estou pensando, eu o conheci hoje no cemitrio. Vou l atend-lo.
	Boa sorte...
Nairne abriu a porta e no viu ningum. O homem deveria ter desistido.
A noite estava fria e muito escura. Nairne resolveu dar uma volta pelo jardim e verificar se realmente a placa havia virado com o vento.
Realmente era aquilo que tinha acontecido. Ela voltou a virar a placa para que todos pudessem ler: No temos vagas. No queria que mais nenhuma pessoa batesse em sua casa  noite, achando que poderia se hospedar ali.
Depois de arrumar a placa, ela abraou-se. Deveria ter colocado um casaco para sair de dentro de casa.
- Boa noite.
Aquela cumprimento, vindo do escuro, fez Nairne gritar de susto.
	Me desculpe, a minha inteno no foi assust-la.
Como estava demorando muito, resolvi dar uma volta pelo jardim.
	Mas o senhor me assustou.
	Peo-lhe desculpas mais uma vez. Mas a senhora no ...
	Sou. Sou, sim, a pessoa que encontrou no cemitrio.
	 uma grande coincidncia. Desde que a deixei estou procurando um lugar para me hospedar. A pousada que a senhora me indicou est com todas as dependncias tomadas. E no existe vaga em toda a regio.
	Minha irm me disse. Mas aqui eu s alugo vagas durante a temporada.
	Bem, me desculpe. Boa noite.  Ele j estava se afastando quando Nairne decidiu hosped-lo.
	Por favor, espere.
Steve voltou-se.
	Os cmodos que alugo aqui, nem se comparam com os da Heatherview. Mas se quiser ficar...
	No estou me importando com luxo. S quero um lugar onde eu possa deitar e ter umas boas horas de sono.
	Onde est o seu carro?
	Na entrada.
	Ento vou at Ia com o senhor, para gui-lo at a garagem.
	No ser preciso. Posso muito bem fazer isso sozinho.
	O caminho at a garagem  muito acidentado. Conheo muito bem o meu jardim.
	J que insiste...
Acomodada ao lado do motorista, mais uma vez Nairne teve a certeza que aquele homem era muito rico. O veculo, alemo e com um cheiro de novo, era muito luxuoso.
	O senhor pode entrar pelo porto maior e seguir em frente.
Steve, dirigindo com muito cuidado, seguiu-lhe as instrues. Quando o carro estava na garagem, os dois desceram.
	O senhor tem muita bagagem?
	Uma mala e uma pasta apenas.
Lacnico. Nairne estava diante de um homem que quase no falava e, quando o fazia, era preciso. Objetivo.
	Por favor, venha por aqui.
Steve pegou a bagagem e a seguiu.
Ao abrir a porta, Nairne deu de cara com a irm e o cunhado.
	Estvamos preocupados, Nairne  Kyla disse.  Est tudo bem?
	Est, sim... Vou hospedar o senhor...
	Steve Galbraith  ele completou-lhe a frase.
	Eu sou Nairne Campbell.
Kyla estranhou muito a atitude arredia de Steve. Apesar de muito bonito, o homem no parecia nada amigvel.
	Bem, vou buscar o caf...  Kyla foi para a cozinha.
	E eu vou dar uma olhada l fora para ver se as crianas esto chegando.  Adam saiu bastante preocupado.
	Venha, vamos at  sala de visita  Nairne sentia-se insegura e profundamente nervosa.
Steve a acompanhou at a sala.
	Sente-se  ela disse, indicando-lhe uma confortvel poltrona.
	Prefiro ir direto para o meu quarto. No quero atrapalhar uma reunio familiar.
	Quanto a isso no se preocupe, o senhor no est atrapalhando...
	Pronto! Aqui est o caf.  A irm entrou na sala, interrompendo as palavras de Nairne.
	O sr. Galbraith est querendo ir para o quarto, Kyla.
	E sem provar os pezinhos da minha irm? De jeito nenhum. Os pezinhos dela foram premiados num concurso culinrio que teve aqui na cidade.
	Mame! Mame! Eu cheguei!  Catriona entrou correndo na sala.  E o papai me disse que a tia Nairne fez pezinhos. Quero comer trs!
Kyla abraou a filha sorrindo e perguntou:
	Como ? Isso so modos? No vai cumprimentar a sua tia e o seu novo hspede?
	Oi.  A garotinha olhou para a mesa de centro e quis saber:  Mas onde esto os pezinhos?
	Eu vou busc-los, filha.  Neste instante, Kevin entrou na sala e, muito educadamente, disse:
	Boa noite, tia Nairne. Boa noite, sr...
	Galbraith  Kyla apressou-se em dizer.
	Boa noite, sr. Galbraith. Sou Kevin.
	Boa noite, Kevin  Steve respondeu ao cumprimento do menino.
Steve no teve jeito de escapar quela reunio familiar. Sentou-se na poltrona que lhe fora indicada anteriormente e permaneceu calado.
O silncio daquele estranho hspede comeou a incomodar muito Kyla e o marido. Depois de tomarem caf, na primeira oportunidade que tiveram, levantaram-se e se despediram.
	Mas vocs poderiam ficar mais um pouco...
	No vai dar. Amanh, Adam tem que se levantar cedo para ir trabalhar. Mas eu ligo para voc.
Nairne acompanhou as visitas at a porta e quando voltou, disse a Steve:
	Por favor, me acompanhe. Vou lhe mostrar o seu quarto.
Ele permaneceu alguns segundos em silncio, como se hesitasse. Nairne, a cada instante que passava, ficava mais e mais ansiosa com o comportamento daquele homem.
	Certo  ele finalmente disse e se levantou.
	 por aqui.
Nairne indicou-lhe a escada e, antes que Steve comeasse as subir os degraus, ela se precipitou e foi na frente. Mas parou logo em seguida.
"Estou assustada, agindo como uma boba!", ela pensou e terminou de subir a escada.
Em silncio, Steve a acompanhou at o quarto.
	Acho que  o melhor que temos.  o mais aquecido.
A cozinha fica embaixo dele. Se quiser acender a lareira...
	Para mim est muito bom.  Steve a interrompeu.
 S quero um quarto por uma noite, sra. Campbell. Nada mais que isso.
Nairne imediatamente percebeu que aquelas frases queriam dizer muito mais. E no se conteve:
	E  exatamente isso que estou lhe oferecendo, sr. Galbraith; O caf da manh ser servido s oito.
	Otimo.
Nairne ainda ficou por alguns instantes dentro do quarto, para ver se ele lhe pedia algo. Mas Steve, ausente, parecia no enxerg-la.

CAPITULO II

Aquela casa, toda de barro e pedras, tinha L.quase trezentos anos. Seu teto era de ardsia, as janelas em madeira macia e as paredes bastante grossas.
Antes de se mudarem para aquele local, Nairne e Rory tinham mandado instalar um sistema de aquecimento no trreo. Infelizmente o dinheiro no fora suficiente para que um sistema semelhante fosse instalado na parte de cima. Por isso, exceto no vero, os quartos eram bastante frios. Isso, apesar das lareiras, que s eram acesas quando havia algum doente em casa. Ou, quando algum hspede achava necessrio.
Mas a cama de Steve Galbraith se encontrava num local privilegiado. O fogo  lenha aquecia bastante o quarto em que ele estava.
Trmula, Nairne se cobriu com outro cobertor. Quando Rory era vivo, nunca sentira frio na cama. Mas, pelo jeito, esse inverno seria diferente. Apesar da promessa que vinha se fazendo h semanas, Nairne sempre arrumava um jeito para adiar a compra de um cobertor eltrico. Afinal, existiam outras compras mais necessrias para a casa.
Porm, agora estava profundamente arrependida por no ter comprado o cobertor. A noite prometia ser muito fria.
Nairne levantou-se, abriu o guarda-roupa e pegou uma manta de l. Quem sabe mais uma outra coberta resolveria a situao.
O relgio de cabeceira marcava meia-noite.
O que seria aquilo? Ela ficou atenta. Ser que ouvira um rudo ou l fora comeara a ventar de novo?
Nairne prendeu a respirao para ouvir melhor. De novo um barulho, que agora se assemelhava a um baque, como se algum que estivesse sobre uma cadeira trocando uma lmpada, tivesse cado no cho.
Preocupada, acendeu o abajur e saiu debaixo dos cobertores. Naquela casa s se encontrava ela e Steve Galbraith. O que ser que acontecera? Ser que ele havia cado e se ferido?? Ele... ele tambm poderia ter tido um ataque cardaco!
Nairne vestiu um roupo e seguiu na direo do quarto de Steve, pretendendo bater de leve na porta. Mas no instante em que levantou a mo para dar a primeira batida, hesitou. E se o barulho no tivesse vindo dali? Steve poderia estar dormindo. Na certa no lhe agradeceria por t-lo acordado no meia da noite. No, ela no bateria na porta. Ao invs disso, a abriria devagar e veria se dentro do quarto estava tudo bem. A luz do fogo da lareira, que na certa ele havia acendido, a ajudaria.
Com cuidado, levou a mo direita at  maaneta de madeira antiga e a girou devagar.
Apesar do cuidado, a porta rangeu um pouco e Nairne recomendou-se em pensamento que fosse mais devagar e no se preocupasse com os ps que mais pareciam dois pedaos de gelo de to frios que estavam. Tremendo, continuou empurrando a porta.
De repente, a porta foi puxada pelo lado de dentro com muita fora.
 Mas que diabos a senhora est querendo aqui no meu quarto?  ele perguntou quase gritando.
Nairne, alm do susto, estava morta de vergonha. Fora pega numa atitude imperdovel. Justo ela que fazia de tudo para no ser invasiva, para que seus hspedes se sentissem  vontade ali naquela casa. Mas sua atitude tinha sido imperdovel. Deveria ter batido na porta, mesmo que por causa disso precisasse enfrentar a fria de Steve Galbraith. Mas no, resolvera verificar por ela mesma abrindo a porta. E agora... Agora tinha que aguentar as consequncias dos seus atos.
	Eu acho que ouvi um barulho  ela disse num fio de voz.  No, eu no acho. Tenho certeza que ouvi um barulho. Foi uma espcie de baque, como se algum tivesse cado no cho. Fiquei com medo que tivesse lhe acontecido algo e resolvi verificar.
	Estranho, muito estranho...
Nairne notou que a expresso dele havia mudado. Steve no parecia mais to zangado. Muito pelo contrrio: um sorriso aflorou-lhe aos lbios, embora seu olhar continuasse frio.
	Eu no ouvi nada  ele continuou.
	Como? No foi qualquer barulho. Foi um barulho forte. O senhor devia estar dormindo.
	Se tivesse havido qualquer barulho, com toda certeza eu teria acordado. Tenho o sono muito leve, sra. Campbell.
 Bem... s me resta pedir-lhe desculpas.  Apesar de inconformada com a afirmao que Steve fizera, Nairne tinha certeza que ouvira, sim, barulho. E no fora s uma vez. Por que seu hspede no escutara? Isso ela no poderia dizer.  Talvez tenha sido o barulho do vento...
	Ou... - Ele se encostou no batente da porta.  Ou, talvez, no tenha havido barulho algum. Talvez...
Um segundo antes que ele terminasse a frase, Nairne sabia exatamente o que Steve Galbraith estava para dizer.
	Talvez por aqui a solido do inverno se torne insuportvel  a voz dele agora era suave , e a senhora s quisesse um pouquinho de... companhia.
Perplexa, Nairne o fitava. Seu hspede ultrapassara todos os limites. Antes, porm, que antecipasse qual atitude Steve Galbraith tomaria a seguir, ele acariciou-lhe o rosto com um certo desdm.
	Talvez uma jovem viva precise de um pouco, digamos... de alegria.
Com raiva, Nairne afastou-lhe a mo.
	Sr. Galbraith, detesto pessoas que usam de eufemismos para se comunicarem. Acredito em dilogos francos e abertos. Se est pensando que vim at o seu quarto  procura de sexo, por que no diz isso claramente?
Nairne percebeu que por causa da indignao que sentia, tinha fechado as mos e as havia colocado nos bolsos no roupo.
 Seria muito mais decente e honesto de sua parte falar exatamente o que lhe passa pela cabea, a ficar fazendo esse tipo de insinuao. Mesmo assim, quero lhe dizer umas coisinhas: sim, sou uma viva! E  verdade tambm que esta casa  muito, muito solitria sem o meu marido. Mas no estou procurando algum que ocupe o lugar dele apenas por uma noite. Porm, se isso estivesse acontecendo, pode ter certeza que o senhor no ocuparia as minhas fantasias. Um homem, para ir para cama comigo, precisa de certas caratersticas que o senhor no tem. O senhor  frio, calculista e parece detestar o ser humano.
Pronto! Dissera tudo o que ficara engasgado em sua garganta. E ele merecera ouvir tudo aquilo.
Nairne virou-se e se dirigiu para o quarto, achando que a qualquer momento Steve Galbraith fosse cham-la para se desculpar. Mas ele no fez isso.
Ao chegar no quarto, ela foi direto para a cama. E sabia que, por mais que tentasse, seria incapaz de dormir. O frio que sentia agora era muito maior do que antes. Steve Galbraith a tratara com muita grosseria. Que direito ele tinha de dizer-lhe aquelas palavras? Fora muito temerrio deixar que um estranho dormisse ali em sua casa. Afinal, estava sozinha. Mas ela s quisera ajud-lo. E o que recebera em troca? Grosseria, apenas grosseria!
Nairne estava certa que ouvira barulho. E no tinha sido o vento. O vento parara. H horas.
Ela ajeitou os cobertores, ainda pensando nas palavras do seu hspede inesperado. Como? Como ele ousara ir to longe? E ainda com eufemismos. Mas, felizmente, deixara bem claro para aquele homem quem era ela. Uma mulher digna. Que lutava para sobreviver e no estava atrs de aventuras fceis e inconsequentes. S Deus sabia o quanto tinha lutado nesse ltimo ano para manter aquela casa. Sozinha. Sem a ajuda de ningum. Enfrentara momentos difceis, de desespero e dvidas. Mas tinha sobrevivido. Inteira. A duras penas, mas tinha sobrevivido. E agora, depois de tudo, ainda tinha que ouvir um estranho, dentro de sua prpria casa, insinuar que ela no era uma mulher sria.
Aquele homem cheirava perigo. Confuso. Ele no lhe inspirava confiana. Parecia muito magoado e ressentido. Mas ele no tinha o direito de jogar sobre ela nem mgoa, nem ressentimento.
Ainda bem que ficaria ali apenas aquela noite. Depois: nunca mais o veria. Nunca mais teria que enfrentar aqueles olhos verdes ameaadores.
Nairne comeou a respirar profundamente para ver se conseguia relaxar um pouco. E o exerccio respiratrio funcionou. Porm, dez minutos depois de ter adormecido, ela acordou muito preocupada.
Se Steve Galbraith no fora o responsvel por aquele rudos  e ele no tinha motivo nenhum para mentir  quem, ou o qu, fizera o barulho? Ela havia ficado to arrasada com o que acontecera na porta do quarto dele que nem se fizera essa pergunta antes.
Ser que o barulho viera do sto? Talvez o vento tivesse tirado algo fora do lugar que s cara depois. O melhor era levantar-se e ir dar uma olhada.
	Desista! J  muito tarde!  ela recomendou-se e cobriu a cabea com os cobertores. Alm do mais, Nairne tinha medo de ir at o sto sozinha. Antes precisaria procurar uma lanterna e...
	Desista, Nairne!  ela voltou a recomendar-se.  Nem durante o dia voc gosta de ir at l... E pedir quele cafajeste que lhe acompanhe, est fora de questo. V se dorme.
Ela s conseguiu pegar no sono no final da madrugada. Quando isso aconteceu, tinha decidido: iria, sim, ao sto. Mas pela manh. Depois que ele tivesse partido.
A cozinha estava aquecida. No ar, o cheiro bom de panquecas e caf fresco.
Um rosnado de Shadow indicou  Nairne que seu hspede estava se aproximando.
Ela decidira receb-lo de uma maneira amigvel. J lhe dissera tudo o que merecia ouvir. Com um esptula na mo, forando um sorriso, afastou-se um pouco do fogo e virou-se. Qual no foi a sua surpresa ao deparar-se com Steve, j encostado na porta, fitando-a atentamente. Com os cabelos molhados penteados para trs, malha de l azul e calas pretas, ele estava muito elegante.
Sem entender direito o porqu, Nairne sentiu uma pontada no estmago. A, a conversa da noite anterior ocorreu-lhe de novo; as insinuaes que tanta a haviam desagradado.
 Bom dia  ela disse.
Steve no respondeu ao cumprimento. Meio sem jeito, Nairne voltou a se ocupar das panquecas. Por qu? Por que ele tinha que se comportar daquele jeito? Estaria querendo provar o qu? E a quem? A ela...? Impossvel. Afinal, os dois nem e conheciam.
Por mais que tentasse negar, Nairne sabia que aquele homem a atraa. Algo nele a deixava totalmente desprotegida, sem saber como agir. E agora tinha certeza que a atrao era recproca. Se isso no fosse verdade, por que ele teria se comportado daquela maneira na noite anterior? E por que a fitava da maneira que fazia agora?
Profundamente incomodada com a situao que se criara ali na cozinha, Nairne continuava a fazer as panquecas. Steve Galbraith no era homem que se interessasse por uma mulher to simples quanto ela. Deveria estar acostumado  elegncia e ao glamour das mulheres das grandes cidades. O carro, as roupas que usava indicavam que era um homem rico.
Nairne ordenou-se que se acalmasse. Logo ele iria embora e seria apenas uma lembrana. Por sinal, uma lembrana nada agradvel.
Uma a uma as panquecas estavam sendo feitas. A vontade dela era de pedir a Steve que sasse de onde estava. Mas faltava-lhe coragem. Coragem para enfrentar a frieza daqueles olhos verdes.
Muitos pensamentos passavam pela cabea de Nairne. Entre eles o que mais a deixava confusa eram os que se relacionavam com a prpria aparncia. De repente estava achando que deveria ter vestido uma outra roupa. O jeans e a blusa de l que usava eram velhas e...
"No, no deveria ter colocado uma outra roupa. O que est acontecendo com voc, Nairne Campbell? Ser que enlouqueceu?", ela se perguntava em pensamento.
No aguento mais a situao, ela tornou a virar-se e disse:
	O caf da manh costuma ser servido em outra sala. Mas j que est aqui, acho que no se importar em tom-lo na cozinha. Por favor, sente-se.
Nairne voltou a ocupar-se com as panquecas. Quando foi coloc-las sobre a mesa, esperava ver Steve j sentado. S que ele no se encontrava  mesa, mas junto  janela perdido em pensamentos.
Sem saber o que fazer ou o que dizer, ela pigarreou e comentou:
	Felizmente o tempo melhorou. Hoje pela manh sa com um casaco pesado e logo precisei tir-lo. A blusa de l que estou usando foi suficiente para o frio que faz l fora.
Steve, ento, a fitou e perguntou:
	A sra. saiu de casa hoje?
	Sa, sim. Fui dar uma volta com a Shadow. Saio com ela todas as manhs para um pequeno passeio.
	Um pequeno passeio. Sei... E quanto tempo esse pequeno passeio demora?
Nairne deu uma olhada para Shadow, que abanava a cauda desde que ouvira pronunciar o seu nome.
	Ns vamos at o outro lado de Glencraig e damos uma volta pela praia. Isso demora cerca de uma hora. Devemos andar uns trs quilmetros.
	E a senhora chama isso de um pequeno passeio?  O tom de voz que Steve usava era um tanto depreciativo. Ele voltou a fit-la e depois olhou de novo para fora.  Pelo jeito a Senhora tem um supermercado aqui.
Para Nairne aquilo tudo no passava de pura provocao. E ela no iria entrar naquele jogo. Se prometera que iria trat-lo bem, lhe serviria o caf da manh... e era exatamente o que iria fazer. A noite anterior e tudo o que ele lhe dissera precisava ser esquecido. Mas esquecer ficava dificil com aquele homem teimando em se mostrar quase hostil. Ela porem, sabia que precisava ter paciencia.
Nairne pegou o bule com o caf recm-coado e serviu duas xcaras. Depois, pegou os pezinhos que a sua sobrinha tanto gostava e colocou-os sobre a mesa.
Steve se mantinha em silncio. Um silncio que incomodava. O comentrio que ele fizera ficara no ar. Ela, por fim, resolveu dizer:
	No quer, por favor, sentar-se?
Steve afastou-se da janela e sentou-se.
Nairne tambm sentou-se e resolveu terminar com aquele silncio:
	O senhor fez um comentrio sobre o jardim... Mas ele  muito maior do que parece. O terreno continua atrs da casa onde tem um imenso pomar e muitos canteiros de verduras. E acho que tem razo... Ele parece mesmo um supermercado. A gente aqui tinha duas frentes de trabalho: durante a temperada eu cuidava dos hspedes e da casa. Rory e os garotos cuidavam das verduras, legumes e das frutas. Eles plantavam, colhiam e...
- Garotos?  ele perguntou e tomou um gole de caf.
	... garotos... Meu marido e eu, mesmo antes de virmos morar nesta casa, sempre estivemos envolvidos com assistncia social. Depois que viemos morar aqui, demos empregos a vrios garotos. Aqui, alm de aprenderem a plantar, eles ficam sabendo que toda pessoa tem o direito de ser respeitada.
	E a senhora continua com esse trabalho?
	Continuo, sim.
	Quantos garotos trabalham com a senhora?
	Sete. Agora, se contarmos com Kilty, oito garotos trabalham aqui comigo. Mas a situao dele  diferente... Os garotos no em Glencraig agora...
Por alguma razo que Nairne seria incapaz de explicar, a tenso existente entre os dois aumentou.
Ela tomou um gole de caf e ficou olhando para Steve.
	Quer dizer ento que os garotos no esto em Glencraig? E onde eles esto?
	Foram para algum lugar na costa oeste; no sei exatamente para onde.  um programa criado pela prefeitura. Os garotos se hospedam em diversos albergues, navegam...
	Enfim, se divertem muito. Quanto voltam, nem parecem os mesmos. Ficam mais confiantes, senhores de si.  muito bonito, de se ver a mudana que ocorre com eles.
Apesar do entusiasmo com que falava, Nairne pde notar que Steve se ausentara: seus pensamentos estavam longe daquele lugar e ele j no a ouvia mais.
Por um instante Nairne sentiu uma certa irritao: no s por Steve, mas por todas as pessoas que no davam a menor importncia e se aborreciam com um assunto to importante. Problemas em casa com os pais, faziam com que crianas e adolescentes sofressem muito, se tornassem desajustados. E a maioria das pessoas fazia vistas grossas para um problema to grave. Ser que essas pessoas no percebiam que agindo desse jeito s contribuam para que a sociedade se tornasse mais e mais doente?
Nairne tomou o resto de caf que se encontrava na xcara e, om raiva, levantou-se soltando um longo suspiro. Como o marido lhe fazia falta. O trabalho com os garotos era muito difcil, delicado, e s um homem sensvel e abnegado como Rory era capaz de levar em frente uma empreitada como aquela. E agora, com a ausncia dos garotos, ela no sabia o que fazer. Estava sendo economicamente invivel permanecer ali. Nairne tentara alugar a casa, mas no havia aparecido ningum que se interessasse. Tentara encontrar algum que cuidasse das verduras, das frutas... e tambm no encontrara ningum com habilidade suficiente para o servio. Os garotos faziam muita falta. E eles s voltariam em trs semanas. At l muita coisa estaria perdida.
Fingindo mexer no fogo, ela perguntou:
	O senhor deseja mais alguma coisa?
	No, estou satisfeito.  Ele levantou-se, e parecia escolher as palavras que diria a seguir.  Gostaria que me desse a conta.
Do bolso do avental, Nairne tirou um papel e entregou a Steve.
Ele verificou o montante que deveria ser pago e disse:
	Deixei a minha carteira no quarto dentro da pasta.
	No tem importncia, quando descer para ir embora o senhor me paga. Estarei aqui na cozinha.
Assim que Steve saiu, Nairne limpou a mesa e, aps colocar as luvas de borracha, comeou a lavar a loua. Pouco tempo depois, Shadow comeou a latir. Nairne retirou as luvas e acariciou a cabea do animal.
	Calma, Shadow... Est tudo bem. Nosso hspede logo
vai embora. Por que voc ficou de repente to nervosa?
	Sumiu!  Steve entrou na cozinha profundamente alterado.  Minha pasta estava sobre a cmoda quando vim tomar caf e agora ela desapareceu.
	Isso e impossvel. No tem mais ningum nesta casa e ns dois ficamos aqui tomando o caf da manh... O senhor deve ter deixado a pasta em algum outro lugar. Procurou no guarda-roupa?
	Mas  claro que sim. Chequei aquele quarto inteirinho  ele respondeu com muita raiva.
Nairne fez de tudo para manter a tranquilidade. Steve Gabraith tinha mesmo a capacidade de tir-la fora de srio.
	Vou subir e checar de novo  ela disse no melhor tom de voz que conseguiu.
Ao subir a escada, Nairne percebeu que Steve a seguia. Por qu? Por que aquele homem resolvera segui-la? Ele que ficasse na cozinha e a aguardasse. Ser que no percebia que era uma pessoa desagradvel? E tudo aquilo por causa do vento que virara a placa. Kyla havia lhe dito que ali s funcionava como hospedaria no vero. Mas Steve Gabraith no tinha desistido. E ela, querendo ajudar, lhe dera abrigo. E agora... Aquele homem estava lhe trazendo muitos problemas!
Nairne chegou diante do quarto que Steve ocupava e entrou.
- Mas... O que  aquilo ali?  ela perguntou indignada apontando para a cmoda.  Ser que o senhor tem algum problema de viso? Acho que aquela  a pasta que disse ter sumido. Ou estarei enganada? Sr. Gabraith, detesto brincadeiras!
	Mas... Tenho certeza que ela no estava ali antes.
	Tudo bem, tudo bem...  Ela estava muito impaciente.
 O senhor no tem cara de quem no paga as prprias contas. Ou ser que estou enganada?
	Mas  claro que eu pago as minhas contas.
	Ento, por favor, pague o que me deve, pegue a sua pasta e v embora. Tenho muito trabalho para fazer  	Nairne sentiu-se muito bem em ser direta, de no ter usado subterfgios para pedir que ele a deixasse em paz.
Pasmo, Steve pagou a conta e desceu a escada sem pronunciar uma s palavra.
Nairne, que o acompanhara, abriu a porta da frente e, assim que Steve saiu, ela disse:
	Boa sorte.
A vontade era de ter batido a porta com fora, mas ela conseguiu se controlar.
	Mas que homem mais insuportvel  ela comentou com Shadow subindo at o quarto que at h pouco fora ocupado por Steve.  Ele parece que  o dono do mundo!
Ainda bem que nunca mais vou v-lo!
Nairne apagou o fogo da lareira, retirou os lenis da cama, pegou as toalhas que tinham sido deixadas no banheiro e as levou para a lavanderia. Depois, foi verificar no jardim se a placa continuava do mesmo jeito que a deixara na noite anterior.

CAPITULO III

O sto da casa de Nairne era muito grande e ocupava quase toda a parte superior da construo. O acesso a ele era atravs de uma pequena escada de madeira que existia no primeiro andar.
Lanterna em punho, Nairne deu um longo suspiro de alvio ao subir o ltimo degrau que a levava at o sto. No que estivesse com medo. No, mas o lugar era mido e melanclico demais. Ainda bem que trancara as duas portas de entrada. Sentia-se um pouco mais segura.
Aquela atitude era nova para Nairne. Sua casa, conhecida por todos pelo nome Bruach, sempre estivera aberta aos adolescentes que ali trabalhavam. Dia e noite, eles sabiam que em Bruach encontrariam abrigo. E no era raro, logo pela manh, encontrar algum garoto na cozinha tendo Sha-dow como companhia. A histria sempre se repetia: brigas, desavenas familiares.
Mesmo aps a morte de Rory, ela continuou a agir da mesma maneira. Mas agora, tinha que se conscientizar que era uma mulher que morava sozinha numa casa imensa e precisava se proteger.
Os barulhos que ouvira na noite anterior ainda a deixavam muito preocupada. E aqueles barulhos no haviam sido produzidos por nenhum dos garotos. Eles estavam a quilmetros de distncia dali. S que Nairne no ficaria sossegada enquanto no descobrisse a origem dos barulhos. Mesmo sabendo que poderia ter sido apenas um rato que derrubara algo, precisava se certificar.
Nairne finalmente entrou no sto e acendeu a luz. Nada.
O local se encontrava exatamente como o tinha deixado. As caixas empilhadas nos devidos lugares, os velhos mveis lado a lado. Mesmo assim, foram precisos alguns minutos para que se convencesse que ningum estava se escondendo ali. No no sto.
Quando ia sair, ela se lembrou que no verificara um cmodo pequeno que, na verdade, era a parte mais alta da casa. O quarto tinha apenas uma cama antiqussima e um dia na certa fora ocupado por algum empregado.
Devagar, meio apreensiva, Nairne segurou a maaneta e a girou. Ao tentar abrir a porta, que estava meio emperrada, o som de madeira ressecada ecoou pelo silncio do local. Definitivamente, ningum estava se escondendo naquele quarto. De repente, Nairne prestou mais ateno na cama e viu que o colcho parecia ter sido usado recentemente. E o travesseiro no se encontrava no local em que o deixara. Alm disso, uma cadeira estava tombada. Certamente aquilo fora a causa do ltimo barulho que ouvira. Demorou um pouco para que ela notasse, no cho, aos ps da cama, um mao de cigarros vazio.
Algum, sim, estivera ali na ltima noite. Entrara sem que percebesse e se alojara naquele quarto do sto. E fumara ali dentro. Na casa dela!
Nairne sentiu muita raiva. Raiva por ter tido sua casa invadida por algum desconhecido. Se quisessem abrigo era s falar com ela; sempre fazia o possvel e o impossvel para ajudar a todos. Jamais algum se atrevera a ir at o sto sem lhe pedir permisso. Nem os garotos que frequentavam Bruach. Eles desde o incio aprendiam os limites, as regras da casa. Uma coisa era algum ser encontrado na cozinha pela manh, outra era algum se ver no direito de invadir-lhe a privacidade, entrar no sto e passar a noite inteira ali sem que ela soubesse.
Trmula de tanta indignao, Nairne deixou o quarto. Agora entendia por que seu hspede no ouvira barulho algum. O local que lhe designara para passar a noite ficava do outro lado da...
O som de uma brecada interrompeu os pensamentos de Nairne. Depois a batida estrondosa da porta de uma carro. O que seria aquilo?
Apressada, ela saiu do sto. Os sons lhe indicaram que algum parara o carro diante da sua casa. E esse algum deveria estar com muita pressa. O que estaria acontecendo?
Quando se aproximava do final da escada que dava no trreo, a campainha tocou.
 J estou indo!  ela gritou.
Ao abrir a porta, Nairne levou um susto.
Diante de si, parecendo que estouraria de raiva a qualquer momento, Steve Galbraith. Mas ele no estava sozinho. No... Steve,Galbraith segurava pela camiseta um jovem quase da altura dele. Um jovem que Nairne conhecia muito bem. E o reconheceria em qualquer lugar. Quem, como o garoto, poderia combinar com tanta graa uma camiseta surrada com uma estampa do Rolling Stones e uma saia escocesa? Quem tinha na orelha esquerda um brinco to delicado onde se via o smbolo do movimento hippie? Quem, naquela regio, tinha os cabelos roxos? Kilty Dunbar! Apenas Kilty Dunbar se vestia daquela maneira.
A surpresa de Nairne era muito grande. O que Kilty estaria fazendo ali? Para ela, o adolescente tinha viajado com os outros garotos.
E por qu? Por que Steve Galbraith o estava tratando daquela maneira to agressiva?
	Entrem, preciso saber o que est acontecendo.
Kilty no se mexeu.
Possesso, Steve o puxou pela camiseta e gritou:
	Entre!
Como o garoto se negasse a dar um passo, Steve o fez entrar aos trancos.
	Pare com isso! No admito que tratem ningum desse jeito na minha casa. Exijo explicaes, sr. Steve.
	Ah... a senhora exige explicaes! Essa  muito boa. Exija explicaes desse delinquente. Vamos, moleque! Fale! Qual  o seu nome!
	No grite desse jeito! Eu detesto gritos!
	E como quer que eu trate uma pessoa como ele? Com flores? Vamos, moleque: me diga o seu nome!
Kilty olhou Steve com um profundo desdm e respondeu:
	Dunbar. Somerled Dunbar. Meus amigos me chamam de Kilty. Mas voc, que no  e nunca vai ser meu amigo, pode me chamar de Somerled.
Nairne olhava para a cena que tinha diante de si. Estava muito preocupada com Kilty, que conhecia desde que havia nascido. A me dele fora uma de suas melhores amigas. O garoto, apesar de todos os problemas que comeara a ter aps a morte dos pais, jamais tratara ningum de maneira to rude como acabara de fazer. Ele parecia muito satisfeito em desafiar Steve Galbraith.
No suportando mais aquela situao, Nairne perguntou:
	Daria para um de vocs dois me explicarem o que est acontecendo? E voc, Kilty? O que est fazendo aqui? Vi voc embarcando com os outros garotos.
No havia desdm na voz de Kilty quando ele se dirigiu  Nairne:
	Disse ao sr. Webster que no estava me sentindo muito bem e pedi que me deixasse voltar. Ele concordou e lhe telefonou avisando.
	No, eu no recebi telefonema nenhum. E eu acho que minha secretria eletrnica est com algum problema.
	Eu apaguei as mensagens da sua secretria eletrnica  Kilty confessou ficando muito vermelho.
	Voc o qu?  Nairne quase no acreditava no que acabara de ouvir.  Quando voc fez isso?
	Vi quando ontem foi para o cemitrio. Como no queria que ningum soubesse que eu estava aqui, apaguei as mensagens da secretria.
Estarrecida, Nairne ficou olhando para o garoto durante um longo tempo. E, como se fossem peas de um quebra-cabea, tudo comeou a se encaixar e a ficar mais claro.
	Quer dizer, ento, que aquele barulho... era voc no sto.
	Era.  Kilty respondeu sem coragem de encar-la.
Nairne, muito triste, balanou a cabea. O que realmente estaria acontecendo? Ela voltou sua ateno para Steve Galbraith e a pergunta que estava por fazer morreu em seus lbios. Steve olhava para o garoto de uma maneira que a deixou sem saber o que pensar. Steve parecia estar procurando por algo no rosto de Kilty e tinha uma expresso carregada. Ser que estava equivocada? Seria apenas raiva o que via no rosto e nos olhos daquele homem?
	Sr. Galbraith, gostaria que me dissesse o que est acontecendo. Por que est tratando Kilty dessa maneira to rude?
Nairne pensou que Steve no tivesse ouvido a pergunta que acabara de fazer e estava para faz-la de novo quando, com um esforo enorme, Steve deixou de fitar Kilty e a encarou.
Devagar, a expresso de raiva que Nairne via no rosto dele, transformou-se em frieza.
Steve colocou as mos nos bolsos e disse:
	Depois que sa daqui, fiquei pensando nos barulhos que a senhora ouviu de madrugada e na minha pasta que tinha desaparecido. Juntando os fatos, conclu que eles poderiam estar relacionados e que, possivelmente, tinha mais algum nesta casa. Achando que seria melhor que soubesse das minhas suspeitas...
	O senhor resolveu voltar.
	Exato. E eu estava entrando quando eu vi...
	Ele me viu pulando a janela. A, esse maluco pegou o carro e me caou como se eu fosse um animal  Kilty estava profundamente revoltado.
	No deveria ter feito isso, Kilty.
	Me desculpe, Nairne.
	Mas ainda no entendi direito: foi voc, Kilty, quem pegou a pasta?
	Fui eu. Mas peguei a pasta apenas para...  o garoto interrompeu o que estava falando e no parecia disposto a continuar com as explicaes.
	E... voc colocou a pasta no lugar e aparentemente no estava faltando nada, nem dinheiro nem carto de crdito  Nairne se ouviu falando.
O garoto, muito nervoso, fez um leve gesto de cabea, concordando com as palavras dela.
Um impasse. Nairne sabia que estavam vivendo um impasse. Olhando para Steve, quis saber:
	O senhor vai ligar para a polcia?
	Na minha maneira de ver as coisas, essa seria a nica atitude a tomar. Mas pensando melhor, acho que tem condies de cuidar desse garoto. Afinal, a senhora cuida de oito durante o ano todo e cuida tambm dessa imensa plantao a fora. Isso sem mencionar seus hspedes durante o vero.  Steve deu um longo suspiro e concluiu: se quer um conselho, sra. Campbell, acho que deveria vender esse casaro, arrumar um homem decente e se casar de novo. A, poderia constituir uma linda famlia e ter algumas filhas. Elas do muito menos trabalho e muito menos problemas do que marmanjos como esse.
A simpatia que Nairne comeava a sentir por Steve Galbraith desapareceu como por encanto quando ele acabou de dizer o que pensava. Fria e ressentimento se apoderaram dela. Porm, por alguma razo que no saberia explicar, Naime resolveu no dizer o que lhe passava pela cabea. Melhor guardar a raiva, melhor no dar quele homem o prazer de saber o quanto suas palavras a haviam deixado irritada. Enfrentando o olhar de Steve, esperou que ele fosse embora.
Mas Steve no fez meno de sair. Para espanto de Nairne, o rosto sempre to austero, tomou um ligeiro tom de vermelho. A, ele pigarreou e disse:
	Estive pensando, sra. Campbell... Talvez eu possa gozar da sua hospitalidade durante mais alguns dias.
Pelo jeito Steve Galbraith tinha enlouquecido! O que exatamente estava querendo? Por que resolvera de repente permanecer mais alguns dias em Bruach?
Nairne sabia que o melhor que tinha a fazer era se livrar de uma vez daquele homem e cuidar de Kilty que continuava ali, revoltado e profundamente envergonhado. Mas ela, para sua prpria surpresa disse:
	Tudo bem.
Tudo bem? Ser que dissera mesmo aquilo? Uma vozinha interior lhe avisou que estava cometendo um grande erro. Mas ela a ignorou.
	O senhor pode ocupar o mesmo quarto. Vou fazer um caf novo. Dentro de dez minutos estar pronto. E voc, Kilty, me acompanhe at a, cozinha.
Dez minutos. Ela no se dera muito tempo. Mas em dez minutos talvez conseguisse falar com Kilty e saber exata-mente o que estava acontecendo. Nairne no acreditava que o garoto voltara porque no havia se sentido bem. No, deveria existir uma outra razo para que no quisesse fazer aquela viagem to esperada pelos outros adolescentes. Mas qual seria essa razo? Ser que Kilty lhe diria a verdade?
Na cozinha, enquanto colocava gua para ferver, Nairne perguntou:
	J comeu alguma coisa hoje, Kilty?
	No, ainda no.
	E voc est com fome?
	Estou.
	Bem, sugiro que depois que me disser exatamente o que est acontecendo, faa duas coisas: v para a casa e pea a sua tia Annie para servir-lhe o caf da manh. Depois procure o dr. Coghill para que ele o examine.
	Minha tia viajou.
Como fora se esquecer daquele detalhe? A tia de Kilty aproveitara a ausncia do garoto para tambm espairecer um pouco.
	Ento a sua casa est fechada? Bem, mesmo que consiga entrar, no d para voc ficar l sozinho.
	Ser, ser que eu posso ficar aqui at a minha tia voltar?
	Aqui?  Nairne perguntou espantada, mas logo as similou a ideia:  Claro que pode. Temos muitos quartos vagos. Pode ocupar aquele que quiser.
	Gostaria de ficar no quarto do sto.
	No quarto do sto?
	. Dormi l essa noite.
	Se quiser ficar naquele quarto vai precisar limp-lo muito bem.
	No tem problema: eu limpo.
	Mas tem uma condio para que fique no quarto do sto  ela disse com firmeza.  No quero que fume. Se quiser fumar vai ter que ser no quintal. No quero ningum fumando dentro de casa.
	Certo. Sem problemas. E pelo jeito vou ter que voltar para a escola tambm.
	Vai, vai sim. S esto dispensados das aulas os alunos que foram viajar. Mas no tem que ser j, neste exato minuto. Antes voc precisa se alimentar.  Ela abriu um armrio, pegou uma caixa com cereais e a colocou sobre a mesa.  Na geladeira tem leite e frutas. Sirva-se.
Bem, chegara o momento de saber por que Kilty resolvera no viajar com os amigos.
	Mas me diga Kilty, por que voc resolveu voltar?
O garoto olhou para o lado e respondeu meio constrangido:
	Nairne, sei que no poderia estar lhe pedindo isso, mas no gostaria de falar sobre o assunto. Ele  muito particular.
Nairne pensou um pouco. No, ela no podia insistir para saber o motivo que levara Kilty desistir da viagem. No naquele momento. Pelo jeito o garoto precisava de tempo.
	Tudo bem  ela disse de maneira gentil , mas no se esquea: se precisar de algum para conversar, eu estou aqui.
E tudo que me disser, Kilty, ficar somente entre ns dois.
	Obrigado, Nairne.
Kilty foi at a geladeira pegou leite e algumas frutas. Depois sentou-se  mesa e comeu com muito apetite. Ao terminar, pegou as louas que havia usado e as lavou. Enquanto isso, Nairne terminava de fazer o caf.
	E sobre aquela histria de ter apagado as mensagens deixadas na minha secretria eletrnica...
	Nairne, estou pensando em trabalhar neste fim de semana. E voc no precisa me pagar  o garoto mudou de assunto.
	Combinado.  Ela fingiu no perceber a estratgia de Kilty.
	Agora eu vou indo...
	Gostaria que desse um recado para o dr. Coghill.
	Dr. Coghill?
	Voc no vai v-lo?
	No, Nairne, no vou ver o dr. Coghill. Eu menti para o sr. Webster. No estou sentindo nada. Agora vou para a escola. Vejo voc mais tarde...
Kilty estava saindo da cozinha quando Steve entrou. Ao passar por ele, o garoto lanou-lhe um olhar de desprezo.
Nairne logo pensou que Steve fosse dizer alguma coisa, mas se enganou. Steve apenas voltou-se e ficou olhando o garoto se afastar.
Segundos depois ouviram o barulho da porta da frente. Nairne no se dera conta que tinha mantido a respirao suspensa at que soltou todo o ar que mantinha preso nos pulmes. Steve e Kilty no mesmo espao significava perigo. A animosidade entre os dois era muito grande.
"Talvez a qumica de ambos no combine", ela concluiu em pensamento. "S isso explica essa energia estranha, pesada, existente entre eles."
	Tudo certo por aqui?
	Tudo certo.  Naime serviu-lhe uma xcara de caf, mas no o convidou para sentar-se. A sensao que tinha era que Steve queria conversar com ela. Mas conversar sobre o qu?

	Me conte a estria desse garoto  ele pediu de repente.
Nairne ficou surpresa com o pedido de Steve.
	Voc est se referindo ao Kilty?
	Estou.
	Por que o interesse?
	Me interesso por adolescentes desajustados.
Ser? Ser que Steve Galbraith estava dizendo a verdade? Nairne no acreditava muito naquelas palavras. Ela resolveu, ento, provoc-lo:
	Do mesmo jeito que se interessa por sepulturas antigas?
Nairne percebeu que aquela pergunta o deixou perturbado. Mesmo assim Steve respondeu, aps tomar um gole de caf:
	Exatamente.
	Ele  um garoto muito gentil.
	Gentil? Pelo que pude ver...
	O senhor conheceu apenas uma parte dele.
	A melhor, eu acho  Steve ironizou.
	O senhor est enganado: Steve  um garoto muito inteligente e educado.
	Mas, pelo que entendi, todos os garotos que trabalham aqui tm problemas com a lei.
	Todos tm, sim. Menos Kilty. A estria dele  diferente.
	Diferente? Como?
	Kilty  o mais jovem de todos os adolescentes que trabalham comigo. Comeou a trabalhar aqui depois da morte dos pais. Ele sempre foi muito solitrio e muito original. Isso deu para o senhor perceber pela maneira peculiar que se veste.
	...  difcil imaginar um garoto da idade dele usando uma saia escocesa.
	Mas estamos na Esccia, sr. Galbraith.
	Mesmo assim. So poucos os homens que usam saias por aqui.
	Isso tudo comeou com a me dele, Hazel, que o fazia usar saia aos domingos quando iam para a igreja. Ela queria manter a tradio escocesa.
	E os outros garotos? Tambm usavam saia?
	No, mas faziam muitos brincadeiras com Kilty por causa disso. Quando o filho comeou a cursar o primrio, Hazel no insistiu mais que ele usasse saia. Mas ao completar onze anos, Kilty fez uma excurso at uma grande cidade. Quando Hazel e Hugh foram busc-lo na estao, quase no o reconheceram: alm de estar usando saia, comeou a usar essa tinta roxa nos cabelos. Desde ento s usa saias.  a marca registrada dele. Kilty tem muita personalidade.
Um longo silncio, que s foi quebrado pelo sino da igreja de Glencraig, se instalou na cozinha. E foi Steve a quebr-lo:
	A senhora mencionou que os pais dele morreram. Quem, ento, est cuidando do garoto?
Cada vez mais Nairne estava intrigada pelo interesse de Steve em Kilty.
	O nico parente que Kilty tem vivo  uma tia de muita idade, Annie Low. Ela no se conforma em ter um sobrinho to diferente dos outros adolescentes. E, por causa disso, Kilty tem tido muitos problemas. Annie me pediu que desse um trabalho para Kilty. E foi o que fiz.
	E pelo jeito a senhora se d muito bem com ele.
	Gosto muito do Kilty. Como j lhe disse,  um garoto muito gentil. Mas me preocupo muito com ele.
	Por qu?
	Morando com a tia e trabalhando aqui comigo, ele no tem um modelo masculino para seguir.
	E na escola? Ele se sai bem?
	Kilty, apesar de ser muito inteligente, no  l um aluno muito aplicado. O nico interesse real que tem ...
A campainha do telefone fez com que Nairne interrompesse o que dizia.
	Me desculpe, preciso atender  chamada.
	Claro...
Nairne pegou o telefone. Era Kyla.
	Ser qu daria para passar a receita daquele pudim sobre o qual me falou ontem  noite?  a irm perguntou aps t-la cumprimentado.
	Me d s alguns segundos, Kyla, vou pegar o meu caderno de receitas.
Nairne colocou o receptor sobre a mesinha e disse a Steve:
	Me desculpe, mas ficarei alguns minutos ao telefone. Est pretendendo sair?
Ao fazer a pergunta, Nairne ficou imaginando o que levava um homem como Steve Galbraith a ficar hospedado em fevereiro numa cidadezinha perdida da Esccia. Um homem como ele poderia passar as frias em qualquer lugar do mundo!
	Estou  Steve finalmente respondeu.
	Sabe, aqui na minha casa costumo oferecer apenas o caf da manh aos meus hspedes. Mas como tudo em Glencraig deve estar fechado, se quiser fazer outras refeies em Bruach...
	Obrigado. Vou sair e voltarei s cinco.
	Esteja  vontade.
Steve saiu e Nairne percebeu que ela no estava nada  vontade dentro da prpria casa. E tudo por causa de um estranho que tinha a capacidade de deix-la muito nervosa. E por qu? Por que sentia~se to perturbada diante de Steve Galbraith? Ele possua uma fora, um magnetismo...
"V procurar o caderno de receitas e esquea esse homem! Sua irm est esperando", ela se recomendou em pensamento.
Aps encontrar o caderno, Nairne voltou ao telefone.
	Voc ainda est a, Kyla?
	Estou, sim, mas que diabos est acontecendo?

	Nada. Pensei que o caderno estivesse no armrio e ele estava no meu quarto  ela mentiu.
	Ainda bem...
	Pronta para anotar a receita?
	Pode ditar.

CAPITULO IV

Kilty chegou da escola s quatro horas e Nair- logo lhe pediu que fosse arrumar o quarto do sto. Quando uma hora mais tarde ele voltou, o garoto lhe assegurou que tudo l em cima se encontrava em ordem. -Ea cama? Ser que aguenta voc?
	Aguenta, sim. Estava meio bamba, mas j dei um jeito nela: ficou bem firme.
	Otimb.  Nairne estava junto  pia descascando batata.  Semana passada fui visitar a sua tia e ela me mostrou as fotografias que esto na parede do seu quarto.
So maravilhosas. Voc  um excelente fotgrafo, Kilty.
	Obrigado.
Apesar de ter ficado vermelho por causa do elogio, Nairne observou que no havia nenhum tipo de falsa modstia no agradecimento do garoto. Kilty parecia estar conscincia que sabia fotografar muito bem. Em seu quarto, inmeras fotografias de Glencraig eram a prova de que o garoto tinha muita sensibilidade.
-Annie me disse que, apesar de gostar muito de fotografar, voc parou desde quando foi morar com ela. Por qu?
	Acho que perdi o interesse. Quando fui morar com minha tia, empacotei vrias das minhas coisas e dei um fim nelas.
	O que voc fez com a mquina fotogrfica?
	Vendi.
	Voc vendeu a mquina?  Nairne perguntou chocada.  Oh, Kilty..., no podia ter feito isso. Sua me um dia me contou que seu pai fez muito sacrifcio para poder economizar e lhe dar aquela mquina de presente.
Nairne ficou toda condoda quando viu duas lgrimas escorrendo pelo rosto do garoto.
	Por favor, Nairne, no continue falando obre isso.  Ele enxugou as lgrimas com as costas das mos.
	Mas Kilty, voc sabe fotografar muito bem. Ser que no percebe que est desperdiando um grande talento?
	J disse que perdi o interesse. No quero mais foto grafar. Aquilo era coisa de criana.  Ele saiu da cozinha. Instantes depois, Nairne o ouvia subindo a escada.
	Kilty foi para o sto. Como sempre, est querendo ficar sozinho  Nairne disse baixinho, aborrecida. Tinha muita pena do garoto.
O barulho da porta da frente se abrindo a tirou dos pensamentos em que mergulhara. Steve deveria estar chegando e logo iria querer jantar.
Nairne se apressou com as batatas, e descascava a ltima quando ele entrou na cozinha.
	O cheiro est muito bom  Steve comentou.
	Estou fazendo sopa de lentilhas.  Nairne cortou as batatas e as colocou na panela.  Onde esteve?
	Dei uma volta pela redondeza.  Ele se aproximou do fogo.
Mesmo sabendo que no precisava de ajuda, ela pediu:
	Daria para mexer a sopa para mim?
Aquela era uma ttica usada por Nairne sempre quando um dos garotos chegava na cozinha e no sabia o que fazer. Era s pedir que a ajudasse e tudo se resolvia. E, pelo jeito, a ttica tambm estava funcionando com Steve.
Como Steve se encontrava muito prximo a ela, Nairne sentiu cheiro de lcool.
	Quer dizer, ento, que resolveu tomar uma bebidinha antes de vir para casa?
Steve a fitou e, pela primeira vez, Nairne viu que seu olhar estava menos agressivo.
	Confesso: sou culpado.
Tanta proximidade fazia com que Nairne ficasse mais e mais perturbada. Quando lhe pedira que mexesse a sopa, havia pensado que Steve, depois de executada a tarefa, logo se afastaria do fogo. Mas ele continuava l: mexendo a sopa bem devagar.
Aquela cena era muito ntima. Um homem e uma mulher preparando o jantar. Nairne teve vontade de brincar com seu hspede, mas se conteve. Ele poderia no entender a brincadeira.
	Meu marido tambm costumava beber um drinque sempre que saa.
	 mesmo?
	Mas ele nunca se excedia. Rory era muito responsvel, coisa rara hoje em dia.
Steve continuava mexendo a sopa e Nairne no sabia como lhe dizer que j podia parar. Uma outra preocupao era quanto a continuar chamando-o ou no de senhor. Para ela, aquilo era formalismo demais. Mas Steve Galbraith poderia se ofender e...
	Essa sopa est muito apetitosa  ele disse.
	Aprendi a receita com a minha me.
	As receitas antigas so sempre as mais gostosas.
	O senhor  casado?  ela perguntou de repente.
Mas Nairne logo se arrependeu de ter feito a pergunta.
Depois do que acontecera na noite anterior era certo que Steve logo imaginaria que a pergunta fora feita com segundas intenes.
Para a satisfao de Nairne, Steve respondeu a pergunta de maneira leve e espontnea:
	No, no e nunca fui casado. E, pelo que depender das mulheres, acho que nunca participarei desta instituio.
	O que significa isso? O que as mulheres andaram fazendo com o senhor?
	Elas sempre fogem na ltima hora. Parece que s me querem como amante. Mas me diga: qual a receita que lhe deram para que o seu casamento fosse to feliz?
Nairne, que no acreditara nas palavras dele, respondeu com uma outra pergunta:
	O senhor  do tipo ciumento?
	Eu? Do tipo ciumento?
	Me desculpe, acho que fui muito indiscreta.
	De jeito nenhum. Mas eu no sou do tipo ciumento. Sou cnico, isso sim.
	Cnico?
	. Cnico. At hoje no encontrei uma mulher em quem pudesse confiar.
Aquilo explicava tudo. Steve Galbraith na certa tivera uma experincia muito dolorosa com alguma mulher e passara a duvidar de todas.
	Como ? No vai defender as mulheres?  ele a provocou.
	No. Se teve experincias que o levaram a duvidar de todas as mulheres, no sou eu quem vai mudar a sua opinio. Sinto muito que no tenha tido sorte no amor.
	Sorte?  Ele riu.  Mas a sorte no tem nada a ver com isso. Houve uma mulher na minha vida que me ensinou tudo: ela era dura, controladora, mau-carter e... Bem, para resumir, ela era uma grande vagabunda.
Nairne achou forte demais a ltima palavra pronunciada por Steve. Mas no fez o menor comentrio. Ele devia ter boas razes para qualificar uma mulher daquela maneira.
	Nairne.
Ela virou-se. Era Kilty quem a chamava e parecia estar profundamente insatisfeito por ver Steve ao lado dela no fogo.
	Tudo bem com voc?
	Tudo. J fiz as minhas lies. Agora vou andar um pouco. Volto s dez.
Antes que Nairne pudesse dizer algo, Kilty j tinha sado.
Ela, muito preocupada, foi arrumar a mesa. Nunca vira Kilty agir daquela maneira. O garoto parecia sentir um profundo dio por Steve. Fora isso que h pouco vira em seus olhos: dio.
Mas como aquilo podia acontecer? Kilty e Steve nunca antes haviam se encontrado.
Ela teve vontade de perguntar a Steve o que poderia estar acontecendo com o garoto. Porm, seu instinto fez com que se mantivesse calada. Se existia mesmo algo entre Steve e Kilty era um problema que no poderia resolver. Mas nunca vira o garoto demonstrar tanto dio por algum.
	Algo errado?  Steve perguntou.
	No, nada de errado... S estava pensando em Kilty.
	Eu o conheo desde que nasceu. Foi uma criana prematura, mas sempre teve muita sade. Lembro que quando Hugh viu o filho, me perguntou: ele no tem o jeito de um leo? Parece que isso aconteceu ontem. O tempo passa muito rapidamente...
	Quer dizer ento que ele nasceu antes do tempo.
	E... Naquela poca Hugh ficou um bom tempo fora pescando e os dois se casaram assim que ele voltou. Annie foi quem fez o parto e lembro-me de v-la insistir em dizer que no se tratava de uma criana prematura. Mas isso era a opinio dela. Claro que Kilty nasceu antes do tempo. Hugh ficou muito tempo no mar...
	Mas Hugh poderia no ser o pai da criana  Steve afirmou.
	E verdade, mas isso est fora de questo.
	 mesmo? E por qu?
Realmente Steve tinha razo: ele no passava de um grande cnico. Como podia fazer perguntas como aquelas?
	Eu lhe fiz uma pergunta.
	Bem, na vida tudo pode acontecer. Mas no com Hazel.
Ela sempre foi uma pessoa sria, uma mulher de princpios morais rgidos. Ela e Hugh eram namorados desde o tempo de colgio. Ela fora prometida a ele.
	Prometida?
	Exatamente.
	Eles eram noivos?
  Noivos? No, antes de se casarem os dois nunca usaram aliana. Mas todos sabiam que Hazel pertencia a Hugh, que mais cedo ou mais tarde os dois iriam se casar.
S ento Nairne deu-se conta que Steve Galbraith estava muito interessado naquela estria. Por qu? Por que ele se interessava em saber se Kilty fora ou no prematuro? Afinal j fazia muito tempo que aquilo havia acontecido. E por que tanto interesse em Hazel?
Nairne, de repente, lembrou-se que o havia conhecido diante do tmulo de Hazel. Teria sido coincidncia? E aquele tmulo no era to velho assim para despertar-lhe tanto interesse. Mas Steve havia dito que no conhecera Hazel Dunbar.
Como no pensara naquilo antes? Mas era claro: Steve Galbraith conhecera Hazel!
"Ou, no mnimo, ouviu falar sobre ela. E, por alguma razo, odeia aquela que foi a minha melhor amiga", Nairne concluiu em pensamento.
	Aonde o senhor mora?  ela quis saber.
	Num apartamento em Londres.
	E trabalha com qu?
	Sou construtor.
	E constri apenas casas ou tambm se dedica  construo de outro tipo?  Ela desligou o fogo e sugeriu:  Pode se sentar. J j vou servir o jantar.
Steve no se sentou e passou a encar-la com profundo interesse.
	Geralmente me dedico  construo de chals no alto das montanhas. Tenho construdo chals pelo mundo todo. O nome da minha firma  Construes Crest.
	Construes Crest...  Ela pensou um pouco e depois continuou:  A propriedade que faz divisa com a minha pertence  essa firma. Quer dizer, ento...
	A propriedade a qual se refere  minha, sra. Campbell.
	Oh, por favor, me chame de Nairne. Todos aqui me tratam pelo primeiro nome, sr. Galbraith.
	Steve.
	Ento voc  o proprietrio das terras ao lado? Numa poca, meu marido e eu estivemos muito interessados em comprar parte dessa propriedade. Nunca nos conformamos em ver tanta terra sem uso. Mas o advogado da sua firma nos informou que elas no estavam  venda.
	 verdade...
	Acho uma pena ver tanta terra improdutiva.
	Mas Nairne, no entendi direito: vocs estavam interessados em comprar a propriedade inteira?
	Imagine... no tnhamos tanto dinheiro assim... S queramos alguns alqueires.
	Suponho que no estavam interessados na velha casa que tem l. Ela deve estar caindo aos pedaos... Tambm, tanto tempo fechada...
	No, no estvamos interessados na casa: era na terra mesmo. E a vista que se tem de l  fantstica.
	E o que estavam pretendendo fazer com as terras?
	Construir um centro para reabilitao de adolescentes e com o resto, ns planejvamos fazer uma plantao de framboesa. E voc? O que planejava fazer com aquelas terras quando as comprou? Tenho certeza que um homem de negcios como voc no adquiriu a Craigend -toa.
	Craigend... H quanto tempo eu no ouvia esse nome... Naquela poca eu tinha a inteno de construir ali um alojamento para montanhistas.
	Um alojamento para montanhistas! Ao lado da minha propriedade?
	No estou entendendo a sua reao. Ela  de contentamento ou...

	Claro que  de contentamento. J pensou? Um alojamento para montanhistas bem ao lado daqui? Seria fantstico! Mas por outro lado...
	Vamos, diga o que est pensando  Steve pediu.
	Sabe, um alojamento na sua propriedade traria muito mais turismo para c. Tambm traria trabalho para a populao. Mas no gostaria de ver uma cidadezinha como Glencraig toda estragada.
	Eu no estrago nada do que fao. Estava pretendendo construir algo muito bonito em Craigend. Um alojamento que comungasse com a natureza.  Ele se aproximou de Nairne.  Eu adoro a natureza, eu adoro tudo o que  belo...
Nairne percebeu que Steve ia beij-la. Sabia que deveria sair correndo dali, evitar qualquer tipo de contato fsico com ele, mas no foi capaz de se mover. Uma atrao fsica violenta existia entre os dois. Nairne, embora tentasse disfarar para si mesma, sempre soubera disso.
Steve no a tocava, apenas a fitava com aqueles olhos penetrantes, mas ela tinha a sensao de que era acariciada por mos que conheciam todos os segredos do mundo.
Ansiosa, louca por aquele beijo que estava por acontecer, Nairne fechou os olhos e ergueu um pouco a cabea.
A campainha tocou no exato momento em que os dois se encontravam to perto, que seus lbios quase se tocavam.
Demorou alguns segundos para Nairne perceber que tinha algum l fora. Isso s aconteceu quando a campainha tocou pela segunda vez.
Preciso ir ver quem est tocando a campainha.
Nairne saiu da cozinha aliviada. Estivera para cometer algo que talvez viesse a se arrepender pelo resto da vida. Que fora estranha e poderosa a levava para Steve Galbraith?
Ao chegar em frente  porta, ela parou para ajeitar os cabelos e tentar regularizar a respirao que se encontrava bastante alterada.
"Por pouco, por pouco no caio numa armadilha que eu mesma preparei para mim. Se essa campainha no tivesse tocado, no sei o que poderia ter acontecido..."
Nairne abriu a porta e exclamou espantada:
	Dr. Coghill! Mas que prazer rev-lo! Entre, por favor, entre...
O que ser que o mdico estava querendo? Ser que adivinhara que aquele era o momento exato que precisaria de algum para ser salva de uma situao profundamente delicada?
Tentando mostrar-se descontrada, disse:
	No quer me dar o seu casaco, doutor?
	Mas  claro, obrigado.  O mdico tirou o casaco e o entregou  Nairne.
	Vamos para a sala de visitas. . Nairne pendurou o casaco num cabide que ficava no hall e em seguida os dois foram para a sala. Quando j estavam sentados, ela perguntou:  Posso ajud-lo em alguma coisa, doutor?
	Acabei de receber um telefonema de Annie Low.
	E mesmo? Ela voltou para Glencraig?
	No, ainda est em Inverness.
	E o telefonema...
	Bem, Annie me telefonou do Hospital Raigmore. Ela sentiu-se tonta e foi fazer uma consulta. O mdico do hospital resolveu intern-la.
	Que pssima notcia, doutor. Ela vai ficar boa?
	Acho que vai, sim. Mas Annie no poder voltar para casa. Conversei com o mdico que est tratando dela e ele me disse que Annie no pode mais ficar sozinha com o sobrinho. Annie precisa de cuidados. O mdico me disse tambm que vai mant-la sob observao durante vrios dias e quando achar que pode viajar, mandar uma ambulncia traz-la para a casa de repouso daqui.
	Casa de repouso?  Nairne estava penalizada.
	Annie Low no pode mais ficar cuidando daquela casa. Est com quase noventa anos.
	Mas doutor, h cerca de um ano ouvi dizer que ela j tinha procurado, de livre e espontnea vontade, um lugar na casa de repouso. Ser que estou enganada?
	No, voc no est enganada. Mas depois aconteceu o acidente, lembra?
	E como eu poderia me esquecer?
	Pois ... Naquela poca tentei conversar com Annie. Apesar de ter me recebido, no quis nem ouvir falar na possibilidade de Kilty ser mandado para algum orfanato. Mas nunca gostei muito do fato de ela, j to idosa, cuidar de um adolescente como Kilty.
	Acho que o melhor que Annie tem a fazer  mesmo ir para a casa de repouso.
	No existe outro jeito, Nairne.
	Mas o que vai acontecer com Kilty agora? O garoto s tem a tia... Gostaria muito de poder ajudar...
O mdico pigarreou e disse:
	Nairne, eu tenho uma ideia. Mas no precisa me dar a resposta agora. E algo que precisar pensar muito a respeito.
	Diga, doutor, qual  esta ideia?
O mdico levantou-se e disse:
	Sei o quanto voc tem ficado sozinha depois da morte de Rory. Sei tambm o quanto tem se esforado para manter essa casa e continuar prestando assistncia aos garotos que tanto precisam de voc.
	No tem sido mesmo nada fcil...  Nairne havia se emocionado com as palavras do dr. Coghill.
	Pois , minha filha... Sua irm, seu cunhado, seus pais, tm lhe dado todo apoio, mas no  a mesma coisa.
A gente precisa ter uma famlia s nossa. Voc me entende?
	Claro que entendo.
	Pensando nisso tudo e em como voc se relaciona bem com o Kilty gostaria de lhe sugerir...
	Diga, doutor, diga o que est pensando.
 Gostaria que pensasse na possibilidade de adotar Kilty.
Depois que o mdico sara, Nairne, muito calada, havia servido o jantar a Steve. Ele quis saber o porqu de tanta preocupao, mas Nairne apenas lhe dissera que uma amiga no estava muito bem de sade.
Respeitando-lhe o silncio, Steve havia jantado e em seguida tinha ido dar uma volta.
Apreensiva, Nairne andava de uma lado para o outro na sala de visitas. Quase dez horas. Quase dez horas e Kilty ainda no havia chegado. Ser que o Dr. Coghill tinha conseguido encontr-lo?
Muitas coisas haviam acontecido naquele dia...
Nairne sentou-se e comeou a pensar na conversa que tivera com Steve. Por qu? Por que tanto interesse em Hazel Dunbar? E por que ele se negava a vender a propriedade que tinha ali em Glencraig?
O som da porta da frente se abrindo fez com que Nairne se levantasse. Como havia pensado, era Kilty quem chegava.
	Tudo bem com voc, querido?
	Tudo bem, Nairne.
- Estava preocupada...
	Mas eu disse que chegaria s dez. E so exatamente dez horas. Eu no me atrasei...
	Eu sei, eu sei...  Ela deu um abrao no garoto.  Quer comer alguma coisa?
	No, obrigado, estou sem fome.
	Mas voc no jantou, Kilty.
	Comi um sanduche...
	Voc est na fase de crescimento. Precisa se alimentar direito. Quer tomar um copo de leite?
	No... Estou com sono, vou dormir.
	Voc se encontrou com o dr. Coghill? Ele esteve aqui e me disse que ia ver se o encontrava pela cidade.
	Eu no me encontrei com o dr. Coghill. Mas por que ele esteve aqui?
	Sua tia ligou para ele.
	Aconteceu alguma coisa?  Kilty de repente ficou muito preocupado.
	Nada de grave. Ela apenas no sentiu-se muito bem e est num hospital em observao.
	Preciso ir para casa. Vou dar uma boa limpada em tudo, comprar comida... Quando minha tia voltar vai encontrar tudo em ordem. Agora  ela quem precisa de mim.
	Kilty, infelizmente no vai poder cuidar da sua tia.
	Mas Nairne...
	Quando ela voltar para c, vai ficar na casa derepouso.
Um longo silncio caiu sobre a sala at que Kilty entendesse exatamente o sentido daquelas palavras. E quando isso aconteceu, a reao do garoto foi surpreendente:
	Vai ser bom para ela. Minha tia no est mais na idade de ficar cuidando de uma casa to grande, nem de um adolescente como eu. Ela merece paz e tranquilidade.
Preocupado como o bem-estar da tia, Kilty no parecia pensar no prprio futuro.
	Tem certeza que no quer comer nada, querido?
	Tenho, sim, Nairne. Vou dormir agora. Estou muito cansado.
	Kilty  ela o chamou quando o garoto j estava para sair da sala.
Kilty voltou-se e ela pde ver que seus olhos estavam cheios de lgrimas.
	Voc vai pedir que eu no fume l no sto? Pode ficar sossegada. Resolvi parar de fumar. E quando decido algo, ningum me faz voltar atrs. No posso continuar fumando. Sei que voc no gosta desse hbito to ruim para a sade.
	Acho tima a sua deciso, Kilty. Mas estava querendo conversar com voc sobre um assunto muito importante.
	Pode falar, Nairne.

	Bem..., j que sua. tia vai para a casa de repouso, gostaria que viesse morar aqui comigo.
	Aqui? Em Bruach?
	.  Ela sorriu.
	Definitivamente?  O garoto perguntou espantado.
	: definitivamente. Mas para isso eu precisaria... adot-lo. O que voc acha?
- Voc? Me adotar?
	Tem alguma coisa contra?
	De jeito nenhum! Muito pelo contrrio... Mas voc acha que daria certo?
Antes que Nairne pudesse responder a pergunta do garoto, ela ouviu passos no corredor. Era Steve quem chegava.
"Bem que ele poderia ter chegado um pouquinho mais tarde... Tomara que Steve v direto para o quarto", ela pensava.
Mas Steve no foi direto para o quarto. Segundos mais tarde, entrava na sala.
	Que noite mais fria!  ele comentou esfregando as mos Estou indo para a cama, Nairne.  Kilty disse ime
diatamente.  Obrigado por ter me dado notcias de Annie. Quando puder receber visitas, irei v-la.  O garoto ignorava a presena de Steve.  E sobre aquilo que estvamos falando, acho a ideia maravilhosa. Voc sabe que no tenho escolha... Depois que minha me e o meu pai morreram, s me restou Annie. No existe nenhum outro parente que possa cuidar de mim. Se realmente voc me adotar, me sentirei muito orgulhoso.
Antes de sair da sala, Kilty deu um forte abrao em Nairne e disse:
	No existe no mundo ningum como voc...
Nairne no cabia em si de tanta felicidade. Ela precisava comemorar! No era todo os dias que uma mulher ganhava um filho!
	Voc me acompanha num drinque, Steve? Preciso comemorar!
	Quer dizer ento que decidiu adotar Kilty? Acha essa uma deciso sensata?
	Se acho essa deciso sensata?  ela perguntou.  Talvez essa seja uma das decises mais sensatas que tomei em toda a minha vida. Kilty precisa de mim e eu preciso dele. Nenhum ser humano  uma ilha, Steve.
Nairne sabia que no precisava explicar nada a Steve Galbraith. Mas algo naquele homem a fazia querer ir mais longe, a fazia querer provoc-lo:
	Ser que voc nunca precisou de ningum? O seu corao  feito de pedra, Steve?

CAPITULO V

Se Nairne havia pensado que aquela pergunta 'fosse desconcert-lo, ela se enganou redondamente. Steve sorriu e respondeu:
	Acho que o meu corao  igual ao de todo mundo. Tambm sou feito de carne e osso, tenho fome, sede e necessidade de segurana. Ou seja: todas as necessidades bsicas de qualquer ser humano.
	E, com toda certeza, pertencer e amar.  Havia uma certa ironia na voz de Nairne que se aproximou de um mvel onde guardava algumas bebidas para ocasies especiais. Ela pegou uma garrafa e dois copos.  Como voc prefere o seu usque?
	Puro  Steve respondeu e se aproximou dela.  Bonitas palavras essas: pertencer e amar. Vamos  primeira: quando diz pertencer est querendo dizer o qu? Pertencer a um determinado lugar ou... pertencer a algum?
	As duas coisas. Quando digo que perteno a Glencraig, significa que moro e sempre morei aqui. Significa que fao parte desta cidade e ela faz parte de mim.  Ela entregou o copo de usque a Steve e sentou-se no sof.  E voc? Podemos dizer que pertence a Londres?
	No, no posso dizer que perteno a Londres. Nasci em Manchester e j viajei pelo mundo todo. Moro em Londres porque meu escritrio fica l. Considero meu lar o lugar que estou no momento.
	No..., lar no significa isso. Imagine...  Nairne ba lanou a cabea em negativa.  Voc vai ficar aqui em Bruach alguns dias. No d para dizer que esta casa  o seu lar.
	Bem, se  assim que pensa, ento posso dizer que no tenho um lar, que no perteno a nenhum lugar. E no sinto necessidade disso.
	Mas voc mora em Londres.
	Londres funciona como uma base:  apenas um local onde troco de mala.  Ele sorriu.
	Me fale sobre isso.
	Sobre o qu?
	Sobre Londres. A vida que tem por l.  Nairne saboreou um gole de usque.
	Moro num apartamento de trs quartos, sala de estar, sala de jantar e uma cozinha equipada com todas as maravilhas do sculo vinte. Meu apartamento tambm tem dois banheiros e um quarto escuro.
	Quarto escuro? Voc se interessa por fotografia?
	Bem, digamos... que me interessei um dia.
	E voc era um bom fotgrafo?
	Sem falsa modstia, bom o suficiente para sobreviver com o dinheiro que ganhava com as minhas fotos.
	Mas isso  muito interessante. Admiro profundamente as pessoas que ao olharem atravs de uma lente conseguem ver muito mais do que a maioria dos mortais. Minha vida como fotgrafa foi um desastre: ou as pessoas perdiam os ps ou perdiam a cabea.
	Mas estou certo que tem outros talentos.
	Tenho nada. Apesar de pertencer a uma famlia muito talentosa, sou uma pessoa muito comum. Minha me, Kate,  uma artista maravilhosa. Meu pai, Mac,  um inventor. E minha irm Kyla herdou o talento da minha me. Foi Kyla quem fez aqueles desenhos na parede do seu quarto. Voc os notou, no notou?
	Mas  claro que sim. Os desenhos esto muito bons.  Steve de repente parecia meio absorto.  Comum.. Como pode achar que voc  uma pessoa comum? Na aparncia, pelo menos, voc  a pessoa mais incomum que encontrei em toda a minha vida.
	Mas eu no me referia  aparncia. Sei que minha aparncia no  l muito comum...  Ela colocou o copo sobre a mesinha de centro e passou as mos pelos cabelos.
	Para comeo de conversa, uma mulher com os cabelos to ruivos e to encaracolados, j no  nada comum.
	Nem precisa me dizer que no meio de uma multido eu seria a primeira a ser notada. Sei disso desde criana. At hoje no entendi porque ningum me deu um apelido. Todo mundo com cabelos como os meus tm vrios apelidos. Sabia que passei longos anos da minha vida temendo o apelido que poderiam me dar?
	Mas isso faz muito tempo.
	Claro que faz. Esse meu pesadelo durou enquanto eu estava na escola.
	Voc no gosta da cor dos seus cabelos, Nairne?
	No  que eu no goste... Mas bem que eles poderiam chamar menos ateno. s vezes eu os acho horrveis.
	No acredito no que estou ouvindo.
	E verdade.
Steve segurou-lhe uma das mos e disse:
	Levante-se!
	Pra qu?
No discuta comigo. Levante-se.  Ele a puxava. Nairne jamais esperara que Steve fosse agir daquela maneira. O que ele estaria querendo?
	Venha at aqui.  Ele a levou at em frente a um espelho.  O que est vendo?
	Se no me engano, estou vendo a minha imagem Nairne brincou.
	E o qu mais?
	Uma ruiva: estou vendo uma ruiva!
	E voc tem coragem de dizer que os seus cabelos so horrveis?
	Bem, s vezes eu acho, sim, que so horrveis. J disse isso a voc.
	Voc tem algum problema de viso Nairne?
	Eu? Felizmente, no. At que enxergo muito bem.
	No parece. Estou achando que no consegue distinguir as cores muito bem.
	Voc est enganado: enxergo e distingo as cores perfeitamente.
	Ento, como pode dizer que seus cabelos so horrveis?
Seus cabelos so gloriosos, Nairne. Espetaculares.
	Meus cabelos gloriosos? Isso  exagero de sua parte.
	No  exagero, no. Nunca vi uma cor to bonita. As mulheres que conheo em Londres fariam qualquer coisa para conseguirem uma cor como essa.
	Verdade?
	Pode acreditar.
	E engraado... Ningum nunca est satisfeito com a prpria aparncia...
	Voc  uma mulher estranha, muito estranha.
	Eu? Estranha?  Nairne tentou sorrir.
	Pelo jeito, voc no tem a ideia exata do quanto  diferente. Olhe para o espelho e me diga o que v.
	De novo?
	. De novo. Me diga o que voc v.
Nairne voltou a mirar-se no espelho. E o que ela via? Uma mulher. Uma mulher que era quase incapaz de reconhecer. H muito tempo no via seus olhos brilharem daquela maneira, h muito tempo no sentia-se to vibrante.
	Voc no me disse o que est vendo  ele insistiu.
	Estou vendo uma mulher que vai fazer trinta anos, uma mulher que aparenta exatamente a idade que tem. Vejo uma mulher ruiva de pele clara e olhos azuis.
	Interessante...
	O que  interessante?  Nairne quis saber.
	Parece que eu vejo uma mulher e voc v outra.
	Como assim?
	A mulher que eu vejo tem um rosto oval perfeito, pele sedosa, olhos de um azul que me faz lembrar o mar e cabelos... cabelos que mais parecem labaredas de fogo. Labaredas que tm o perfume delicioso de flores.
Nairne o observava atravs do espelho e se mantinha imvel. E quando Steve a virou para que o encarasse de frente, ela pensou que fosse parar de respirar, tamanha era a emoo que sentia.
	Por qu?  ela perguntou com a voz fraca , por que voc faz questo de esconder atrs deste olhar cnico o poeta que ? Por que voc tentou me convencer que era feito de pedra?
A resposta de Steve foi um beijo ansioso que aos poucos se tornou terno, suave.
Nairne, presa ao encantamento que os envolvia, correspondeu ao beijo sem a menor inibio. Parecia que h muito ansiava por um beijo como aquele.
Steve, ainda beijando-a, a levou para o sof.
Nairne, de repente, comeou a se dar conta do que acontecia ali naquela sala. Ela estava nos braos de um estranho. E esse estranho acabara de tirar-lhe a blusa e agora tirava-lhe o suti enquanto beijava-lhe a nuca, o pescoo...
Aquilo no poderia continuar!
Com um protesto, ela colocou as mos sobre o peito de Steve e o empurrou. Mas ele insistia em continuar.
Nairne, ento, disse:
	Pare. Me solte.
A sensao que teve foi que Steve no iria atender-lhe ao pedido. Mas Steve se afastou.
Nairne, imediatamente, arrumou o suti e vestiu a blusa, evitando fit-lo. Porm, quando o fez, Steve se encontrava sentado, com as pernas cruzadas e muito distante. Parecia que nada havia acontecido entre eles.
"Como esse homem  frio...", ela pensava com tristeza.
O silncio continuou por longos momentos entre os dois. E Nairne no sabia o que falar, o que fazer.
	Bem...  ela disse aps um profundo suspiro , sinto muito que isso tenha acontecido.
	Voc sente muito?  ele perguntou num tom de puro cinismo.  A quem est querendo enganar? A voc? Ou a mim?
	Nem a voc, nem a mim. O que aconteceu entre ns dois foi totalmente inesperado.
	Inesperado? Sei... Voc poderia dizer qualquer coisa, menos que foi inesperado o que aconteceu conosco. Talvez pudesse dizer que foi delicioso, excitante... Mas inesperado... No, essa palavra  totalmente fora de propsito, totalmente inadequada.
	Se essa  sua opinio, eu no posso mud-la. Mas, para mim, essa situao foi inesperada.
	Se se sente melhor dizendo isso, no posso fazer nada. Voc pode dizer o que bem entender, mas nenhuma palavra vai mudar o que aconteceu. Tenho certeza que sabia que mais cedo ou mais tarde acabaramos nos beijando, nos acariciando. Voc  um homem muito presunoso, Steve Galbraith.
	Eu? Presunoso? De jeito nenhum. Sou um homem prtico. Mas admito que estava errado apenas em uma coisa.
	E qual coisa  essa?
	Errei quando achei que tivesse ido at o meu quarto para dormir comigo.
	Errou mesmo! Eu disse que tinha escutado barulho. E agora voc sabe que no estava mentindo.
	 verdade. Mas neste exato momento voc quer dormir comigo.
	Mas que palavras mais grosseiras.
	Voc no disse que detesta eufemismos? Se prefere, posso dizer que agora voc quer sim fazer amor comigo.
	No, eu no quero!
	E claro que quer.
	No nego que existe uma forte atrao entre a gente. Mas isso no significa que eu queira ir para a cama com voc!
	Por mim, pode continuar mentindo para si mesma. Mas voc sabe que se fizssemos amor, algo muito bom aconteceria. Existe uma qumica muito especial entre ns dois. Algo que tem a ver com a pele, com os sentidos.
	Pelo jeito voc s pensa em sexo!
	E existe outra coisa para pensar? Sexo  bom, faz bem  sade.
	Voc trata o sexo como algo descartvel. E isso  ps simo. E por isso que tem tantas pessoas sofrendo no mundo.
	Voc acha que eu sofro?
	Muito. Se no sofresse, seria mais delicado, mais suave.
	Sei ser delicado e suave, sabia?

	Quando lhe interessa, tenho certeza que sim. Mas existe muito mais que sexo na vida.
	 mesmo? Daria para me dizer o qu?
	Afeto, cumplicidade, amor.
 Isso s existe nos romances, nas novelas. A vida  diferente.
 No, a vida no  diferente. Somos ns quem fazemos a vida.
 Isso  muito bonito. As palavras sempre so muito bonitas. A realidade  diferente. Voc no tem que se
sentir culpada por causa da atrao que existe ente ns dois.
	Eu no me sinto culpada  ela protestou.
	Se no se sentisse culpada, no estaria se justificando.

	Pelo jeito no adianta mesmo conversar com voc. No estou me justificando. Acontece que no acredito em sexo pelo sexo apenas. Para mim sexo  algo sagrado.
	Quem sou eu para mudar a sua opinio, no ?
	Realmente voc no vai mudar a minha opinio.
	Acho que voc tem medo de mim.
	Eu? Medo de voc? No, Steve Galbraith, no tenho medo de voc. E acho melhor pararmos essa conversa. Ela j est ficando ridcula. E se quer saber a verdade, no me sinto culpada. Me sinto envergonhada pelo o que acabou de acontecer conosco.
	Na minha opinio voc no tem nada para se enver gonhar.
Nairne estava sentindo uma raiva profunda. No por Steve, mas sim por ela mesma. Acabara de se comportar de uma maneira inadequada. Nunca na vida se deixara beijar e acariciar daquela maneira por um estranho. Porm, o mais difcil de suportar era o fato de ter gostado dos beijos e das carcias de Steve.
	Quanto a sentir ou no vergonha, sou em quem decido.
	Mas voc no tem nada do que se envergonhar  ele insistiu.
	Tenho, tenho sim. Sinto como se tivesse acabado de trair...
	O seu marido  ele completou-lhe a frase.
	Exatamente.
	Mas no se trai um homem morto.
	Rory no est morto.
	Mas voc me disse...
	E lhe disse a verdade. Mas acontece que Rory est e sempre continuar vivo no meu corao.
Vivo no seu corao... Palavras bonitas, muito bonitas... Eu falo sobre sexo e voc insiste em falar sobre amor... Por que as mulheres sempre tm que ser to romnticas?
	E por qu? Por que voc tem que ser to cnico?  o amor que faz o mundo girar.
	No, Nairne... O que acabou de falar  um grande erro: no  o amor que faz o mundo girar.  o sexo! Se desse momento em diante a Humanidade esquecesse o amor, mesmo assim a vida continuaria. Basta pegar um homem, uma mulher e...
	Pelo jeito no existe nada de romntico em voc!
	Mas eu sou um homem romntico... Adoro uma lareira, um bom vinho, uma mulher bonita. Para completar a cena, uma boa msica  essencial. Faz parte do jogo. Garanto que com tudo isso a propagao da espcie est garantida.
	 assim que voc enxerga o mundo, Steve?
	E por que deveria ser diferente?
	Meu Deus... Isso  muito triste.
	Onde voc v tristeza, Nairne?
	Em tudo. Em tudo o que acabou de falar.  esse exatamente o mundo que quer viver, Steve? Um mundo onde no exista compromisso?
	Voc acredita na liberdade, Nairne?
	Acredito, acredito muito na liberdade. Mas...

	No parece... Ser que duas pessoas no podem se sentir bem juntos sem ficar fazendo promessas? Deixa eu lhe explicar o que estou querendo dizer. Antes, me d a mo.
	Pra qu?
	No precisa se preocupar. No vai acontecer nada.
Meio preocupada com o que poderia acontecer, Nairne lhe deu a mo.
	Pronto. Estamos de mos dadas. Agora encoste-se no sof.
	No estou gostando nada disso.

	Est, sim. S quero que se encoste no sof. 
Tensa, ela atendeu-lhe o pedido.
	Viu s Nairne? Ns dois: um homem e uma mulher, alguma diferena se, de repente, resolvermos fazer amor sem qualquer tipo de laos ou compromissos?
Dito daquela maneira... Nairne sentia-se muito confusa. Ser que aquele era algum novo mtodo de seduo sobre o qual nunca ouvira falar?
	Por que voc no se d uma chance?
	Eu...
	Mude de atitude, Nairne. Passe a ver o mundo exatamente como ele . Voc merece mudar.
A voz de Steve era suave, acariciante. E ele se aproximara mais dela.
	Nairne, nada nos impede de terminarmos o que comeamos h pouco. Pare de ver o sexo como algo pecaminoso.
Passe a v-lo apenas como o encontro entre duas pessoas. Voc no tem nada a perder.
	Como eu no tenho nada a perder?
	E tem? Voc perderia alguma coisa se ns dois nos relacionssemos sexualmente?
	Perderia, perderia sim.
	O qu? O que voc perderia?
	A mim mesma. E jamais eu quero me perder. Nem quero perder os meus princpios, as minhas crenas. E eu acredito no amor.
	Isso  romantismo barato.
	Mas eu adoro romantismo barato! Vou morrer romntica. E gosto muito do que sou. Eu me respeito Steve Galbraith. Muito.  Ela se levantou.  Agora, se me der licena, vou levar Shadow para dar uma volta.
	Ento, sra. Campbell, tenha uma boa noite.
	Eu terei. Eu terei uma excelente noite.
	Eu duvido...  Nairne o ouviu dizer quando deixava a sala.
J na rua, passeando com Shadow, ela dizia:
	Presunoso, cnico e cafajeste! Steve Galbraith  isso tudo e um grande covarde!

CAPITULO VI

No! Eu no merecia que isso acontecesse comigo! Logo agora?
Nairne recostou-se no banco do furgo e ficou esperando por um bom tempo. O sol da manh batia-lhe em cheio rio rosto. Depois, tentou mais uma vez dar a partida no veculo. Nada. Ela tirou a chave que se encontrava na ignio, colocou-a no bolso e abriu a porta.
Nairne desceu do furgo e bateu a porta fora. Porm, mesmo batendo a porta com mais fora do que o necessrio, sentia-se ainda frustrada. No esperava por aquele imprevisto.
De repente, ela viu Steve saindo de casa. Ele usava jaqueta em couro preto e calas pretas.
	Pensei que fosse sair.  A brisa da manh jogava-lhe os cabelos sobre a testa. Com um gesto, ele os colocou para trs.  Mudou de planos? Ou apenas esqueceu-se de algo?
	Esqueci, esqueci de algo, sim  ela respondeu fazendo uma careta.  Esqueci de pr gasolina no tanque. No sei como pude ser to descuidada. E os postos s abrem daqui a meia hora.
	No tem problema.  Ele sorriu.
	E voc ainda diz que no tem problema? Vou perder meia hora do meu dia.
	J disse que no tem problema, Nairne. A gente vai para o meu carro. Eu levo voc para onde quiser.
Ela hesitou. No sabia se era ou no conveniente aceitar ajuda de Steve. Havia ficado muito feliz quando o Dr. Coghill a procurara e lhe pedira para empacotar algumas roupas e alguns objetos de Annie e os levasse para a casa de repouso. O motivo da felicidade se devia a dois fatos: ajudaria Annie e teria a oportunidade de ficar longe de Steve. Porm, agora, a sua escolha estava entre perder meia hora daquela manh que ainda tinha muito para fazer e sentar-se ao lado dele no carro por alguns minutos.
	Vou aceitar sua oferta.  Nairne foi para a parte de trs do furgo e abriu o porta-malas.
	Para onde ns vamos?  ele quis saber.  Para Inverness? Elgin? Ou Skye? Eu ainda no conheo Skye.
	Sinto muito desapont-lo, mas ns no vamos para Skye. Estou me dirigindo para um local que fica no mximo a um quilmetro daqui. E s estou aceitando a sua ajuda porque preciso levar essas caixas para a casa de Annie. Steve, em silncio, a ajudou a levar as caixas de papelo at o seu carro. S quando estavam a caminho da casa de Annie ele perguntou:
	Voc vai empacotar as coisas da tia do Kilty?
	Vou. Aparentemente ela est muito preocupada com tudo que tem em casa. A o dr. Coghill me pediu que fosse at l pegar roupas e objetos pessoais dela e levasse tudo para a casa de repouso. Quando Annie chegar no fim de semana, talvez se sinta melhor tendo por perto alguns dos objetos que sempre fizeram parte de sua vida.
Enquanto falava, Nairne sentiu o cheiro da mesma fragrncia que Steve usava quando havia chegado em Bruach. Ela, na ocasio, pensara tratar-se de algum perfume, mas agora sabia que a fragrncia era da loo que ele usava aps barbear-se. Deliciosa.
Naquela manh, enquanto ele tomava o desjejum, Nairne tinha ido limpar o quarto que Steve ocupava e, sobre a cmoda, vira um frasco de loo com rtulo preto e branco. No se contendo, abrira o frasco e aspirara-lhe o perfume. Inebriada, Nairne havia fechado os olhos com a sensao de encontrar-se diante da presena marcante e sofisticada de Steve. Assustada com a reao que estava tendo, fechara imediatamente o frasco e o colocara no lugar. No instante em que saa do quarto, Nairne se olhara no espelho. E o que viu foi a imagem de uma mulher com as faces vermelhas, olhos culpados e lbios bem mais cheios e rosados do que normalmente.
	Nairne, estou falando com voc.
	Me desculpe, estava distrada.
	Percebi, mesmo.
	Voc me fez alguma pergunta?
	Fiz. Estou querendo saber que direo tomar. Ainda no consigo ler a mente das pessoas.
	Graas a Deus!
Por que voc est agradecendo a Deus? Ser que estava tendo pensamentos proibidos?
Nairne assustou-se com aquela pergunta. Ela tinha falado em voz alta e nem se dera conta!
Aqui. Vire  direita. A casa de Annie fica logo adiante.
Steve seguiu a instruo de Nairne.
	A casa de Annie  aquela branca com porta marrom, ao lado do poste.
Assim que Steve estacionou, ela desceu do carro.
	Obrigada por ter me trazido at aqui. Vejo voc mais tarde. Estarei em Bruach por volta do meio-dia.
	No est esquecendo nada?  Ele tambm desceu do carro e se encaminhou para o porta-malas.
As caixas! Como pudera se esquecer das caixas? Ela quisera fugir e se dera mal, muito mal.
Steve pegou as caixas e as colocou em frente  porta de entrada da casa de Annie.
	Obrigada pela ajuda.  Nairne pegou a chave da porta.
Mas Steve, pelo jeito, no estava querendo ir embora.
	Voc j pode ir  ela disse.  Posso levar as caixas sozinha para dentro.
	No, eu vou ficar. Estou muito curioso.
	Curioso?  Ela o fitou contrariada.
	: curioso. Estou morrendo de vontade de saber por que voc disse Graas a Deus!
	Disse Graas a Deus porque fiquei feliz em saber que no lia a mente de uma outra pessoa.
	S por causa disso?
	E tambm porque naquele momento eu estava pensando em voc. Satisfeito?
	Eu? Satisfeito? Mas de jeito nenhum! Minha querida sra. Campbell,  preciso bem mais do que algumas palavras para me satisfazer. Mas se disser o qu exatamente estava pensando sobre mim, talvez...
	Tudo bem: estava pensando onde voc teria comprado sua loo ps-barba. Ela deve ser carssima.
	Ah... minha loo ps-barba. Realmente ela  carssima. Mas no a comprei. Algum fez isso por mim.
Nairne sabia que algum significava uma mulher. E ficou furiosa.
	Melhor para voc  ela respondeu.  Agora v embora. Tenho muito trabalho a fazer.
	Bom-dia, Nairne.
Nairne logo reconheceu a voz que a cumprimentava. Ela pertencia  mulher que encabeava a lista das pessoas que no queria que a vissem naquela situao.
Bom-dia, Fanny.
A mulher se afastou com um sorriso nos lbios.
	Voc me parece preocupada  Steve comentou segurando-lhe o pulso.
	Engano seu, no estou preocupada.
	Essa tal de Fanny vai fazer comentrios maldosos, no vai?
	Vai. Vai, sim. Ela  um grande fofoqueira. Se morasse numa cidade to pequena como essa saberia como as coisas
acontecem. s vezes as pessoas ficam sabendo algo a seu respeito bem primeiro que voc. Veja, a Fanny atravessou a rua e parou para apreciar aquela vitrina ali adiante, mas tenho certeza que est nos observando com o canto dos olhos.
	E no est vendo nada demais. Estamos apenas de mos dadas.
	Ns no estamos de mos dadas. Voc est segurando o meu pulso.
	Bem, j que sou um homem extremamente generoso, estou pensando em dar um bom motivo para essa mulher poder fazer fofocas. Nairne, numa frao de segundos, sentiu algo que no saberia definir. Depois, com muita vontade de dar uma boa risada, soube o que se passava com ela. Desejo. Ela sentia um profundo desejo por Steve. E nada podia fazer para mudar aquilo. O desejo aparecia de repente, sem que se desse conta. Ali, naquele local e naquela situao, era hort de sentir desejo?
Voc no vai fazer nada, Ste...
Nairne no teve tempo de terminar a frase. Steve j a beijava sem se importar com nada.
	No devia ter feito isso...  ela disse assim que Steve se afastou.
	No pude me controlar. Voc estava linda demais... Ou melhor: voc  linda demais...  Ele voltou a beij-la.
Fanny continuava do outro lado da calada, observando a tudo com o canto dos olhos.
	Steve, por favor, v embora.
	Quero ajud-la.
	No, eu no quero ajuda. E alm de tudo, conheo muito bem Annie Low. Ela ficaria muito triste ao saber que um desconhecido entrou em sua casa.
	Eu insisto em ajud-la.
	Bem, se quiser mesmo me ajudar, pode vir para c em torno das onze. J estarei com tudo arrumado. A voc pode ir comigo levar as caixas para a casa de repouso.  Nairne abriu a porta.
Steve, sem dar a menor ateno  sugesto que ela lhe fizera, entrou na casa de Annie e parou em frente ao quarto de Kilty. Sem conseguir sequer fazer uma observao de protesto, Nairne o viu entrar no pequeno quarto.
Ela colocou todas as caixas para dentro e se perguntava por qu? Por que Steve se interessava tanto pela vida do garoto?
	Esse  o quarto do Kilty  ela disse.
	Deu para perceber. Mas quem fez essas fotografias?
	Ele.
	Quem? Kilty?
	Exatamente. Elas no so lindas?
Mas Steve, muito interessado nas fotografias, no respondeu  pergunta de Nairne.
	Kilty  um artista. Pena que tenha desistido das fotografias.
	Ele desistiu?
	Desistiu, sim. Ele arruma inmeras desculpas para justificar sua atitude, mas nenhuma delas  convincente. O pior de tudo  que vendeu a mquina fotogrfica que era muito boa. O pai dele fez de tudo para economizar e poder comprar a mquina. Lembro-me que Kilty ficou incrivelmente feliz quando a ganhou.
Nairne depois de alguns instantes, resolveu ir para o quarto de Annie. Quando abria a primeira gaveta, ouviu a porta da frente bater. Steve tinha ido embora sem se despedir dela. 
Nairne ia acabar de fechar a ltima caixa quando ouviu uma batida na porta da frente.
Steve voltou  ela disse feliz ao sair do quarto. 
Mas no era Steve quem a aguardava do outro lado da porta.
Flora, mas que prazer rev-la.
Flora MacDonald era a mulher do pastor.
	O prazer  tod& meu, Nairne.
	Voc veio fazer uma visitinha para Annie, no ? Infelizmente ela no est...
	No, eu sei que Annie est hospitalizada. Vim ver voc. Encontrei-me com Fanny e soube que estava aqui.
E o que mais Fanny teria dito?, Nairne sentiu muita vontade de perguntar.
	Bem..., como precisava falar com voc, vim at aqui  meio constrangida, a mulher do pastor continuou.  Estava pensando em ir at Bruach lhe fazer uma visita. Flora mordeu o lbio inferior.
	Ser muito bom receb-la em casa.
	Mas achei que poderia conversar com voc aqui mesmo.
	Por mim no tem nenhum problema. No quer entrar, Flora?
	Infelizmente no tenho muito tempo... Preciso preparar os sanduches para o encontro dessa tarde.
	Ah... o encontro... Tinha me esquecido dele.
Um barulho de carro chamou a ateno de Nairne. Era Steve quem estava chegando.
	Mas me diga, Flora, em que posso ajud-la?  Ela tocou de leve o brao da mulher.
	No gostaria de aborrec-la, mas o dr. Coghill disse ao meu marido que Kilty est l em Bruach com voc e...
 Flora abriu uma sacola que trazia pendurada no ombro e retirou um objeto de dentro dela.  Kilty vendeu essa mquina para o Duncan. E para pag-la, ele retirou dinheiro do banco. Dinheiro que estvamos guardando para que com pletasse os estudos fora daqui. Na noite passada Peter e eu conversamos muito com nosso filho e ele resolveu que no quer mais a mquina'. Ser que daria para pedir a Kilty que devolvesse o dinheiro de Duncan?
	Flora, tenho certeza que foi muito difcil para o Kilty vender essa mquina. Mas no tenho a menor ideia do que fez com o dinheiro. Deve ter usado em algo que necessitava muito.
	Ser? Ser que Kilty gastou o dinheiro?
	Faz tempo que ele vendeu a mquina, Flora.
	Mas ns no sabamos. Duncan manteve o negcio em segredo.
	A mquina fotogrfica a que a senhora se refere  esta que est em suas mos?
	. E sim...  Flora olhou espantada para Steve que se aproximara das duas e ouvira parte da conversa.
	Oh, Flora... Deixe-me apresentar-lhe o meu novo hspede: esse  o sr. Steve Galbraith. E Steve, essa  Flora MacDonald, esposa de Peter, o pastor.
Aps ter cumprimentado a mulher, Steve perguntou:
	Quanto seu filho pagou pela mquina?
Flora respondeu a pergunta de Steve que, imediatamente, entregou-lhe a quantia mencionada.
	Eu fico com a mquina.
Feliz e muito espantada, Flora logo foi embora levando o dinheiro.
	No entendi a sua atitude.
	Apenas fiz um bom negcio. Essa mquina me custou um preo bastante razovel.
	Acho que no est interessado na mquina.
	E mesmo? Ento em qu eu estaria interessado?
	Em ajudar Flora, por exemplo.
	No sou to generoso assim. E, afinal, nem conheo aquela mulher.  Enquanto falava, Steve examinava a m
quina fotogrfica.  Vou ter uma conversa com Kilty.
	O que est querendo? Que ele lhe devolva o dinheiro?
	Talvez.
	E o que vai fazer se o garoto no tiver mais o dinheiro?
	Bem, existe a possibilidade de ele j ter gasto parte ou o dinheiro todo. Vou pensar a respeito do assunto.
	J se esqueceu que eu lhe disse que Kilty no quer mais fotografar? Ele desistiu. Kilty, ento, vendeu a mquina. E no fez nada de errado. Pediu um preo ao amigo e...
	Esse garoto tem talento  Steve a interrompeu.
	Eu sei disso.
	Pois ... Quando Deus d um talento to grande a algum, no se pode simplesmente desistir. A pessoa tem que investir plenamente nesse talento.
	Voc  um homem muito estranho.
	Isso  bom ou ruim?
	Nesse caso,  muito bom.
	So raras as pessoas que sabem operar com isso aqui.
 Ele mostrou-lhe a mquina.  E Kilty tem um tcnica excelente.
	Parece que ele nunca aprendeu a fotografar. Faz tudo de maneira intuitiva. Revelao ele aprendeu lendo alguns livros.
	Mais um motivo para ter uma conversa com ele.
	Bem, que tal agora pegarmos as caixas?
	Elas esto prontas?
	Esto, sim.
Os dois entraram na casa de Annie.
	A que horas Kilty sai da escola?
	s quatro.
	Quando voltarmos da casa de repouso, gostaria que me mostrasse onde fica a escola.
	Para qu?
	Vou esperar Kilty na sada.
	Hoje no vai ser possvel.
	Por qu?
	A classe dele foi ver uma representao de Shakespeare numa cidade aqui perto e Kilty vai chegar muito tarde e cansado.
	Ento a conversa fica para amanh.
	Acho melhor.
Os dois colocaram as caixas no carro e quando j estavam prximos  casa de repouso, Steve disse:
	Gostaria de almoar com voc em algum lugar bem gostoso.
	Fico feliz pelo convite, mas hoje  impossvel.
	Impossvel por qu? Estamos de carro e podemos ir a qualquer lugar.
	Sei disso, mas realmente ser impossvel almoar com voc. Tenho um encontro logo depois do almoo.
	Encontro?  Ele a fitou espantado.
	E. Um encontro.
	Com algum homem?
	No, tenho um encontro na igreja.

	E  noite? Voc tem algum compromisso para a noite?
Nairne, que era incapaz de mentir, respondeu:
	No, no tenho nenhum compromisso para a noite.
	Ento est combinado.
	Combinado?

	Ns vamos jantar em Heatherview. Assim que che garmos em casa vou ligar para l e marcar uma mesa.
	Mas...  Nairne se calou. Heatherview... Rory e ela sempre iam jantar em Heatherview quando queriam comemorar algo especial. E o qu? O que estariam comemorando naquela noite? No que dizia respeito a ela, nada! No tinha nada para comemorar.
	Algum problema Nairne?
	No, problema nenhum...  Em pensamento ela concluiu:
"S uma saudade imensa de Rory e uma culpa muito grande por estar aqui com voc."

CAPITULO VII

Anoite era escura e muito fria. Steve parou o carro no estacionamento e abriu a porta para Nairne. Ela olhou para o cu. No se via lua nem estrelas. Uma forte neblina cobria toda a regio.
Naquele momento, enquanto se dirigiam para Heatherview onde jantariam, a nica preocupao de Nairne era com os cabelos. A neblina os transformaria num amontoado de cachos ridculos. E ela que tivera tanto trabalho para deix-los bonitos, bem penteados...
Na entrada da pousada, Steve a ajudou a tirar o sobretudo e sorriu em aprovao ao ver a roupa que Nairne usava.
	Voc est linda  ele disse e acariciou-lhe os braos de leve com as pontas dos dedos. Aquele toque delicado fez com que Nairne estremecesse. Pelo jeito seus cabelos no estavam to ridculos, pois havia admirao nos olhos verdes de Steve.
Nairne sentiu que seu rosto ficava um pouco vermelho.
	Voc parece que saiu de uma pintura de Rembrandt. Dourada, suave... Completamente encantada.
Aquele elogio to espontneo fez com que o corao de Nairne batesse mais forte e, agora, tinha certeza que seu rosto ficara completamente vermelho pois o calor que sentia era muito grande. Para fugir de tanto constrangimento, perguntou:
Os homens das grandes cidades so todos assim como voc?
Antes de responder, Steve tirou o casaco e, junto com o sobretudo de Nairne, o entregou ao recepcionista.
Acho que  difcil para voc.
	Difcil?  Nairne olhava espantada para ele.  O que  difcil para mim?
	Receber um elogio.
"O difcil no  receber um elogio. Difcil  receber um elogio seu logo depois de ser tocada com tanta delicadeza", ela pensava.
	Acho que para a maioria das mulheres  muito difcil receber elogios.
	 mesmo? E por qu?
	As meninas desde pequenas aprendem que no devem se tornar convencidas.
	E os meninos? Desde pequenos eles tambm no aprendem que no devem se tornar convencidos?
	Isso eu no vou poder lhe responder. No sei exatamente como  a educao de um menino. Alm de no ter
filhos, no tenho irmos. Mas acho que sabe a resposta para a sua pergunta. Me conte sobre voc. Sua me lhe ensinou a no ser convencido? Ou ser que nunca foi um garotinho?
Ao fazer essa pergunta, Nairne e Steve estavam chegando na porta da sala de jantar da pousada. Ela olhou para Steve e teve a sensao de ver tristeza em seu rosto. Mas se realmente ele havia ficado triste, foi s por alguns segundos.
	Sabe que voc deve estar certa... Pensando bem, acho que nunca fui um garotinho.
	Bem, nesse caso no deve ter o menor problema em aceitar elogios.
	Ser? Por que no tenta?  ele a desafiou.
	Tentar? Mas tentar o qu?  Nairne no tinha entendido o pedido que Steve lhe fizera.
	Elogie-me, sra. Campbell. Assim ter a oportunidade de ver como me comporto.
	Mas eu... eu...
	No existe nada em mim que a agrade? Ser que sou um homem sem atrativos?
	Sem atrativos? No, voc no  um homem sem atrativos.
	Elogio desse tipo no vale. Por que no tenta algo mais direto?
Nairne estava se sentindo uma tola por relutar em participar da brincadeira proposta por Steve. Se continuasse resistindo ele logo iria querer saber o motivo. E, a, a situao ficaria bem pior. Mas o que dizer que no fosse to pessoal? Se lhe elogiasse os olhos... Pronto: iria elogiar-lhe os olhos que, afinal, eram muito bonitos. Ela pigarreou e disse:
	Seus olhos... so estranhos, mas muito bonitos. s vezes, quando me olha, tenho a sensao que estou sendo hipnotizada.
Assim que acabou de falar, Nairne sentiu muita raiva de si mesma. Fora longe demais! Bastava ter dito que os olhos dele eram bonitos. Por que precisara ir to longe?
	Muito bem, sra. Campbell. Esse  o elogio mais intrigante que recebo na minha vida. Saberei usar essa informao que me deu quando chegar o momento certo. E muito obrigado pelo elogio.
	De nada.
	Voc percebeu?
	Percebeu o qu?
	Eu apenas agradeci ao elogio. E exatamente o que deveria fazer quando  elogiada: agradecer.
	Mas voc falou vrias coisas antes de agradecer  ela o lembrou.
	S por causa do meu espanto.
	Nairne, minha querida!  O maitre com um forte sotaque francs, se materializou diante de Nairne e no deu ateno a Steve. Ela no tinha a menor noo de onde o homem havia aparecido.  Mas que prazer rev-la! E voc est belssima, meu amor. Est radiante. Garanto que todos aqui esto estupefatos com sua beleza.
Nairne, muito constrangida com tanto elogios, disse:
	Voc no muda, Alain.
Neste instante ela sentiu Steve dar-lhe um cutuco. Ele estava lembrando-a do que haviam acabado de conversar. Mais do que depressa, ela sorriu e agradeceu:
	Obrigada, Alain.
	Bravo!  Steve disse baixinho.
	Minha querida...  Alain continuou:  Sinto muito o que aconteceu com o seu marido. Foi por isso que ficou tanto tempo sem aparecer aqui, no foi? Tambm no me conformo com tudo o que aconteceu. E a nossa amiga... ela era uma santa. Uma santa... , Nairne, as lembranas so sempre muito dolorosas.
	E verdade. As lembranas so sempre muito dolorosas.
	Mas o tempo  o melhor remdio.... Pode acreditar no que digo. E agora...  Pela primeira vez, Alain olhava para Steve.  Sr. Galbraith,  um prazer receb-lo de novo no nosso restaurante. Agora, por favor, me sigam. Reservei para vocs a melhor mesa do estabelecimento.
Aps sentar-se, Nairne observou:
- Como sempre, Alain, o restaurante est repleto.
	Como sempre, como sempre... Agora vou pedir que lhes sirvam o vinho.  Alain fez uma ligeira inclinao com o corpo e afastou-se.
Do local onde se sentara, Nairne podia ver a lareira. Ela, ento, perdida em pensamentos-, ficou observando o fogo. Quantas recordaes aquele lugar lhe trazia...
	O que voc est conseguindo ver no fogo?
	Me desculpe  ela se assustou com a pergunta.  S estava...
	Pensando no passado.  Steve completou-lhe a frase.  Pelo que pude entender, voc e seu marido costumavam vir aqui. E a primeira vez que volta  pousada depois da morte dele, no ?
	E,  sim.
	Por que no me disse nada quando sugeri que jantssemos aqui? Mas pensando melhor, lembro-me que hesitou um pouco. Eu deveria ter imaginado.
	No precisa se preocupar. No dava para voc saber.
E estou feliz por ter vindo. A primeira vez  sempre muito dolorosa, mas sinto-me como se tivesse vencido uma etapa da minha vida.
 Se  assim, precisamos comemorar.  Steve sorriu para o garom que se aproximava.  E nada melhor do que uma boa garrafa de vinho para comemorar.
O jantar, servido  luz de velas, foi muito tranquilo. Steve nem uma vez provocara Nairne que, por causa do bom vinho, sentia-se leve, descontrada.
Aps Steve ter pago a conta, os dois ficaram  mesa tomando caf.
	Quem  a santa a quem o matre se referiu quando ns chegamos? Pelo jeito dele deve ter sido uma pessoa muito boa.
	E era mesmo. Alain se referia  Hazel, a me de Kilty.
	Essa tal de Hazel era to boa assim?
	Hazel era uma pessoa excelente, uma...
	Santa.
	No gosto dessa sua maneira de falar, Steve.
	S estava repetindo as palavras do matre.
	Hazel era uma pessoa fantstica.  Ela tomou um gole de caf.
	Vocs eram muito amigas?
	Muito, muito amigas.  Os olhos de Nairne se encheram de lgrimas.
	Ela confiava em voc?
	Confiava em mim?  Nairne no estava entendendo direito o interesse de Steve.
	. Estou perguntando se ela confidenciava-lhe segredos.
	Segredos? Hazel Dunbar no era o tipo de pessoa que tem segredos. Ela era...
	Uma santa.
	Quer fazer o favor de parar com essa estria. No estou gostando nada disso.
	Acontece que fiquei intrigado com as palavras do maitre. Como  que um homem pode definir uma mulher como sendo uma santa? Isso  impossvel. Faz parte do carter de todas as mulheres...
	Pare, Steve!
	No se pode confiar em uma mulher.  isso. Ento, como  que esse matre vem dizer que essa Hazel era uma santa?
Indignada, Nairne se levantou.
 No vou lhe xingar de porco chauvinista, por que alm de minha me ter me ensinado a no ser convencida, ela tambm me ensinou que no devemos xingar as pessoas. Resumindo: tive uma excelente educao. E vejo que o mesmo no aconteceu com voc! Agora, me leve para casa!
Ela saiu apressada do restaurante. Steve a seguia de perto.
	Rude, arrogante, insuportvel!
	Infelizmente, tudo isso e muito mais.  Os dois estavam esperando que trouxessem seus agasalhos.  Estou me sentindo culpado. Voc me perdoa?
	Eu o perdoo por ter estragado uma noite to bonita. Mas pelo que disse sobre as mulheres, jamais o perdoarei! No existe a menor dvida que teve uma pssima experincia com algum. E essa experincia o deixou cego, sem o menor discernimento. Talvez um dia aparea na sua vida uma mulher que preencha todas as suas expectativas. Mas no se esquea que uma mulher tambm tem muitas expectativas! Duvido que seja capaz de cumpri-las!
	O que acabou de dizer foi um golpe duro, Nairne.
	Voc mereceu  ela afirmou com convico.
	E... Eu mereci.
Os agasalhos dos dois foram entregues. Quando Nairne vestia o dela, seus cabelos ficaram presos por dentro da gola. Steve ajudou a arrum-los e depois perguntou:
	Continuamos amigos?
	Amigos? Ns?  Nairne estava espantada. - E ser que ramos amigos antes?
	Por mais estranho que lhe possa parecer, sim! Sim, eu me sentia seu amigo. Parece que sou seu amigo desde sempre. 
Em silncio, os dois foram para o carro.
Nairne estava perplexa com a declarao dele. No, no poderia ser amiga daquele homem; seus sentimentos por Steve Galbraith eram tumultuados, confusos.
Assim que chegaram em Bruach, Nairne se despediu e foi para a cama. Steve no dissera quanto tempo planejava ficar em Glencraig, mas na primeira oportunidade ela lhe perguntaria a respeito.
No dia seguinte, Nairne, Steve e Kilty tomaram o caf da manh juntos.	
Nairne j lavava as louas quando Kilty levantou-se da mesa e disse:
	Estou indo para a escola.
	Espere um pouco, Kilty. Preciso falar com voc.
O garoto virou-se, encarou Steve, e perguntou:
	O que  que voc quer?
	A me de Duncan procurou Nairne ontem para lhe contar que o filho comprou a sua mquina fotogrfica com o dinheiro que estavam economizando para a educao dele.
A sra. MacDonald queria o dinheiro de volta.
	Fiz um negcio com Duncan. E foi um negcio honesto.
No posso devolver-lhe o dinheiro. Ele ter que ficar com a mquina.
	Eu comprei a mquina de volta.
	timo! Faa bom proveito!  O garoto estava muito impaciente.
	Isso  maneira de falar comigo?
	E de que maneira voc queria que eu falasse com voc?
	Com um pouco mais de educao.
	Olha, sr.... Qual  mesmo o seu nome?
	Steve. Steve Galbraith.
	Pois ento, sr. Galbraith, j que comprou a mquina da sra. MacDonald, aproveite para tirar umas fotografias da regio. Ela  muito bonita.
	Inferno! Eu no quero essa mquina! Quero que ela fique com voc! Vi alguns trabalhos seus: so timos! Claro que tem muito ainda que aprender, mas voc tem talento. Voc me paga a mquina aos poucos, no importa quanto tempo isso possa levar.  Steve respirou profundamente e quis saber:  Quanto ainda lhe resta do dinheiro?
	Nada. Gastei tudo.  Kilty ficou vermelho.

	Tudo? Voc gastou todo o dinheiro?
	Gastei.
	E em qu voc gastou tanto dinheiro?
Kilty enfrentava-lhe o o olhar como se lhe perguntasse: O que voc tem com isso?
Nairne, por sua vez, no sabia o que fazer. Com que autoridade Steve Galbraith falava com Kilty daquela maneira?
	Vamos, eu lhe fiz uma pergunta  Steve insistiu.
O garoto no disse uma palavra.
	Que espcie de pessoa  voc, hem? Fiquei sabendo que seu pai economizou muito, fez muitos sacrifcios, para lhe comprar a mquina. A, voc pega o dinheiro e joga fora? Isso  l coisa que se faa?
	Eu no joguei o dinheiro fora!  Kilty gritou.
	Ento fez o qu com ele?
	Gastei... gastei em algo que... precisava.
	Gastou uma soma to grande de dinheiro em algo que precisava? No venha me dizer que voc usa drogas! S faltava essa!
Kilty balanou a cabea devagar e disse quase num fio de voz:
	No, no gastei o dinheiro com drogas. Eu detesto drogas. Como pde pensar que...  O garoto passou a mo pelos olhos que estavam cheios de lgrimas. Depois, virou-se e saiu da cozinha.
Nairne, ao se ver sozinha com Steve, ps para fora toda sua indignao:
	Como pde tratar Kilty com tanta grosseria?
	Mas ele gastou muito dinheiro -toa.
	Em primeiro lugar, o dinheiro era dele. Em segundo, voc no tem nada a ver com isso.
	Estava querendo ajudar.
	Ningum pediu a sua ajuda. E se est mesmo querendo ajudar, deveria ter tratado Kilty com delicadeza. O que aconteceu aqui parecia um interrogatrio de polcia.
	Esse  o meu jeito de ser.
	Ento, sr. Steve Galbraith, mude seu jeito de ser. O senhor  insuportvel! Pensa que s porque tem dinheiro pode tratar as pessoas assim?
	Eu no quis ser to indelicado.  Steve estava transtornado.
	Mas foi.
	Vou atrs de Kilty para pedir-lhe desculpa.  Ele se levantou.
	No faa isso. S iria piorar a situao. Ele saiu daqui chorando. Kilty estava muito humilhado.
	Humilhado?
	Humilhado, sim.
	Acho melhor ir atrs dele.
	J lhe pedi para no fazer isso. Espere-o chegar da escola.
	Eu no me conformo...  Steve voltou a sentar-se.
	No se conforma com o qu?
	Onde ser que ele gastou tanto dinheiro? Ele garantiu que no foi com drogas.
	Eu acredito em Kilty.  Naime fez uma pausa e decidiu enfrentar de vez aquela situao:  Steve, no costumo me meter na vida das pessoas, mas gostaria de saber por que est aqui. Por mais que eu tente,  impossvel no ficar me perguntando o que o liga a Kilty. Sei que existe algo. Voc parece no gostar do garoto, mesmo assim...
	Eu gosto do garoto.
	Se gosta dele, por que o trata com tanto rancor?
	Eu...
	Existe alguma coisa que no consigo entender.  Nairne foi at a janela e ficou olhando para fora.  No dia que eu o conheci, voc estava diante do tmulo de Hazel. Perguntei se a conhecia e voc...
	Eu respondi que me interesso por sepulturas antigas.
	Voc no mentiu. Porm, no respondeu  minha pergunta.
	Sei disso.
	E se eu voltasse a lhe fazer a mesma pergunta? Vai me dizer a verdade?
Steve inclinou a cabea para trs e fechou os olhos. Aps alguns segundos, respondeu:
	Sim, se me fizer a pergunta de novo, eu lhe responderei a verdade.
Nairne se aproximou de Steve, mergulhou no verde de seu olhar e perguntou:
	Voc conheceu Hazel Dunbar?
	No, eu no conheci Hazel Dunbar.
Steve havia falado de maneira pausada e parecia no estar mentindo. Mas algo dentro de Nairne a alertava que aquela no era toda a verdade.
	Eu no conheci Hazel Dunbar  ele repetiu num tom de voz muito triste.  Conheci, sim, uma mulher chamada Hazel Lindsay.
	Esse era o nome de solteira de Hazel.
	Sei disso.
	Ento por que no cemitrio voc disse que no a conhecia? No consigo entender...
	E muito difcil mesmo. Mas eu tinha um segredo  guardar. Um segredo que continuaria guardando se voc no estivesse planejando adotar Kilty. Agora eu lhe revelare esse segredo. S que antes ter que fazer um juramento.
	Um juramento?	
	E: um juramento, Nairne. Jure que nunca vai revelar a ningum o segredo que eu irei lhe contar.
	Eu juro.
	Hazel Lindsay e eu fomos amantes. Ela ainda no era casada. E Somerled Dunbar  meu filho.
	Somerled Dunbar  meu filho.
Durante toda a manh, enquanto limpava a casa, as palavras de Steve ecoavam pelo crebro de Nairne. Por volta do meio-dia, a cabea lhe doa tanto, que resolveu ir dar um passeio com Shadow.
Andando pelas ruas, Nairne sentia-se profundamente confusa. E ela que pensava que Hazel era sua amiga... Como, como pudera lhe esconder um fato to grave, to importante?
Agora, de repente, ficava sabendo que Hugh no era pai de Kilty.
Agora, de repente, o pai verdadeiro de Kilty aparecia e...
Mas por que agora? Por que Steve no ficara com Hazel, no se casara com ela? Por que...?
As perguntas eram muitas. E todas sem respostas. Na certa Steve voltara porque agora queria o filho.
Ela tambm queria o garoto, queria adot-lo.
	O que ser que vai acontecer, meu Deus?  ela per guntou baixinho com uma imensa vontade de chorar.
Nairne ficou andando pela cidade durante duas horas. Quando entrou em casa o telefone estava tocando.
Assim que atendeu  chamada, reconheceu a voz da irm:
	Tudo bem com voc, Kyla?
	Tudo bem. Kilty est a com voc?
	No, ele est na escola.
	Kilty no foi hoje  escola, Nairne.
	Foi, sim. Como sempre, saiu de casa logo de manh.
	No, Kilty no foi para a escola. Kevin se encontrou com ele pela manh e Kilty lhe disse que estava cansado da vida, da cidade, de tudo. Disse tambm que ia embora daqui.
	O qu?
	 verdade, Nairne. Kevin me contou tudo na hora do almoo.
	Ento... ento Kevin disse que ia fugir? E ele foi para  onde? Kevin disse alguma coisa?
Voc sabe como Kevin ... Depois que Kilty despediu-se, meu filho esperou um pouco e o seguiu. Parece que Kilty foi para os lado das montanhas.
	Ser? Mas  um lugar muito perigoso.
	E eu no sei disso?
	Ser que ele resolveu subir at o pico Slagmhor?
	Eu acho que sim. Se Adam estivesse aqui pediria que fosse atrs do Kilty. Ele conhece aquelas montanhas como a palma das mos. Infelizmente Alam s chega de viagem amanh.

	Oh, meu Deus do cu... L  muito frio. E ele saiu daqui de saia e com um agasalho leve sobre os ombros. 
Kyla, estou entrando em pnico.
	Calma, Nairne, calma.
	E como voc quer que eu fique calma, Kyla? Kilty pode morrer l nas montanhas. Eu...
Steve entrou na sala, tirou o telefone das mos de Nairne e disse:
	Dona Kyla, no precisa se preocupar. Vou procurar o garoto. Nairne entra em contato com a senhora assim que eu encontr-lo.
Steve desligou o telefone.
	O que voc est pensado que ? No podia ter feito isso!
	Eu lhe peo desculpas. Sei que agi de maneira grosseira, mas pelo que pude entender Kilty est correndo perigo. Me conte tudo.
Nairne rapidamente lhe contou o pouco que sabia.
	Quer dizer que voc acha que ele foi para as montanhas?
	Acho. O pior  que ele deve ter ido at o Slagmhor. E o pico mais alto. Voc pode v-lo de sua cama. No vero Kilty sempre ia acampar por l para tirar fotografias.
	Mas ns no estamos no vero. Vou atrs dele.
	No pode fazer isso. Voc no conhece o caminho. 
	Devem existir trilhas. Eu encontro o garoto.
	Vou com voc.
	No: voc fica!
	Nada vai me fazer ficar aqui. Alm do mais, conheo muito bem aquelas montanhas e sei exatamente onde ficam os abrigos que os alpinistas usam para se protegerem.
	Acho melhor voc ficar, Nairne.
	Tudo bem: voc vai sozinho. Assim que sair eu vou tambm.
	Se  assim... Ns vamos juntos.
	E o melhor a fazer.
	Quanto tempo demora para ficar pronta?
	Uns quinze minutos. No podemos ir para as montanhas vestidos desse jeito.
	E voc acha que eu no sei? Sou um homem da cidade, mas no sou ignorante!
, Otimo! Melhor assim. Vou preparar tudo o que temos que levar para l e depois telefonarei para a polcia. A polcia vai entrar em contato com uma equipe de salvamento que est sempre de planto.
	Ento vamos fazer o seguinte: enquanto voc arruma o material que iremos levar, eu telefono para a polcia. Onde est o nmero?
	V at a cozinha e pegue na gaveta da mesa uma cadernetinha. O nmero da polcia est l.


CAPITULO VIII

Nairne, arquejando, disse:
 Vamos parar um pouco aqui para descansar. Essa subida  muito ngreme. Precisamos respirar um pouco.  E colocou a mochila ao lado da trilha.
	A Esccia  um dos pases mais lindo do mundo.  Steve tinha firmado uma das botas numa pedra, tambm colocado no cho a mochila que carregava nas costas e agora olhava para o caminho que j haviam percorrido.
	Eu gosto daqui, a Esccia  mesmo um lindo pas.
	Sempre gostei da tranquilidade dessa regio.
	Para mim no existe nada igual.
	Pelo jeito voc j viajou muito, Nairne.
	Eu? No muito. Conheo bem as cidadezinhas por perto. Sempre que posso fao viagens em excurses.
	Voc nunca saiu da Esccia?
	J. Um vez fui para o continente com os meus pais.
Visitamos Roma, Madri e,  claro, Paris. Mas eu ainda era criana.
	 mesmo?  Ele estava surpreso.
	Pode acreditar.  Sentada no cho, Nairne puxou o cano da bota.
	E voc no sente vontade de viajar?
Nairne deu de ombros. Poderia contar a Steve toda a verdade, mas teve medo de trair a memria de Rory. Na verdade adoraria viajar pelo mundo. At tinha um sonho secreto: passar pelo menos um ms num paraso tropical onde o sol brilhasse soberano todos os dias, onde houvessem palmeiras, pssaros exticos e flores que nunca tivesse visto antes... Mas Rory lhe dissera que no iria se sentir bem num lugar como aquele. Alm disso o marido lhe dissera que existiam inmeros lugares na Esccia que ele ainda no conhecia e que no morreria sem conhec-los.
Nairne, perdida em pensamentos, olhou para baixo. Realmente a Esccia era um belssimo pas. Mas existia um mundo l fora. Um mundo muito grande que era incapaz de precisar as dimenses. Pessoas e costumes diferentes, outras raas... Mas ela sempre procurara seguir as vontades de Rory que havia falecido sem sequer conhecer pelo menos toda a Esccia. Mas os dois haviam visitado juntos muitos lugares bonitos.
vida era muito estranha. Levava as pessoas, de repente, sem avisar. E junto com ela, levava sonhos, esperanas, projetos irrealizados.
"No, no  a vida que  estranha. A morte, sim,  muito estranha", Nairne concluiu em pensamento e perguntou:
	Voc, pelo jeito, j viajou muito.
	J, sim. Bastante.
S agora que tinham parado de caminhar, Nairne se dera conta de como estava frio. Antes de pararem para descansar, os dois tinham andado mais de uma hora. E dali para frente esfriaria muito mais. Logo estariam atingindo locais cobertos pela neve. E nem sinal de Kilty. Mas ao chegarem na neve, com certeza, veriam as pegadas do garoto. Isso se ele tivesse mesmo por ali.
Nairne tinha f em Deus que iria encontrar Kilty. Logo. No poderia ser pessimista. Precisava fazer de tudo para manter pensamentos bons, positivos. Pensamentos negativos s atraam coisas ruins.
Kilty merecia ser feliz. Ele era um garoto muito especial. Agora que aparecera seu pai verdadeiro, talvez...
Nairne inspirou profundamente. Como Kilty reagiria ao saber que Steve Galbraith era seu pai?
Nairne resolveu para de pensar.
	Steve, quando voc disse que a Esccia era um pas muito bonito, estranhei a sua voz.
	Estranhou a minha voz?  Ele sentou-se.
	Estranhei, sim. Pode ser que seja fantasia minha, mas voc me pareceu meio triste, meio nostlgico. Voc me disse que nasceu em Manchester, mas com o nome que tem, deve possuir ascendncia escocesa.
	E  verdade. Sou cem por cento escocs. O fato de eu ter nascido na Inglaterra foi um incidente. Meu pai nasceu na regio de Loch Lomond e minha me nasceu no sul, numa localidade chamada Strome  eu acho.
	Voc acha? Quer dizer que no tem certeza?
	Minha me me abandonou logo depois que eu nasci. Fui criado pelo meu pai que se negava a fazer qualquer comentrio sobre ela. Aprendi desde cedo a nunca mencionar o nome da minha me. Meu pai morreu quando eu tinha vinte anos, mas a nossa convivncia foi mais do que suficiente para que eu aprendesse a no confiar nas mulheres.  Ele falava de uma maneira muito austera.  E eu nunca questionei, nem duvidei deste fato. As evidncias sempre tinham me acompanhado. Minha me no havia me abandonado?
Agora Nairne entendia melhor o comportamento daquele homem. O exemplo da me servira-lhe para desacreditar totalmente nas mulheres. Em todas as mulheres.
	E na nica vez que decidi baixar as guardas, na nica vez que decidi confiar...
Steve parou a frase no meio. Mas ele no precisava complet-la. Nairne sabia que se referia  Hazel.
Ser que fora isso que o levara a procurar o filho? Ser que depois de tanto tempo havia percebido que agira com Kilty da mesma maneira que a me agira com ele? Que tambm fora um desertor?
	Sobre Kilty...  Ela no sabia direito como lhe fazer a pergunta que tinha em mente.
	Sobre Kilty...  A voz de Steve agora estava mais suave.
	O que vai fazer com ele? Vai lev-lo para morar com voc ou vai coloc-lo em um internato?
Ao fazer essa pergunta, Nairne no olhava para Steve. No queria que visse seus olhos marejados. Ela olhava para o cume da montanha. Branco. Imponente. Misterioso.
Quando percebeu que Steve se mantinha calado, Nairne esqueceu-se das lgrimas que agora rolavam-lhe pelas faces e olhou para ele.
Steve, porm, olhava para o infinito. Talvez para um ponto dentro de si mesmo que ela nunca seria capaz de atingir.
	Eu lhe fiz uma pergunta, Steve.
	E eu escutei.
	Ento, por favor, me responda. Se no quer responder  pelo menos tenha a decncia de me dizer isso. No gosto de ficar falando sozinha.	
	Voc quer uma resposta? Pois eu vou d-la: no, no vou lev-lo para morar comigo. Nem vou coloc-lo num internato.
	Mas em qual outra alternativa voc est pensando?
	Vou deix-lo aqui em Glencraig, sra. Campbell, e a vida de Kilty continuar como sempre, como se eu nunca tivesse tomado conhecimento da existncia dele. A senhora est querendo adot-lo e eu no fao a menor objeo. Ele ser muito bem cuidado. E eu, providenciarei para que no lhe falte nada financeiramente. A, quando eu morrer, Kilty ser o meu herdeiro.
No, Nairne no podia acreditar no que acabara de ouvir. Ser que a altitude a impedia de raciocinar direito? Ser que a baixa concentrao de oxignio estava lhe fazendo mal? Claro, era claro que podia entender a inteno de Steve, s que aquilo no tinha o menor sentido. Ser que ele pretendia mesmo deixar Kilty em Glencraig e partir? Mas aquilo seria uma violncia contra o garoto que tinha o direito de saber de toda a verdade. Em que a vida transformara aquele homem? Em um monstro? Em um monstro sem sentimentos? Qualquer criana que fosse rejeitada pela prpria me iria se sentir trada, desprotegida. Mas essa criana, depois de crescer e se tornar adulta, poderia trabalhar essa rejeio e agir de maneira saudvel. Mas Steve Galbraith, quando a esse detalhe, parecia no ter crescido. Parecia continuar a mesma criana frgil e desamparada que na certa tinha sido.
	No, Nairne...  Steve parecia muito cansado , voc no ouviu errado. Ouviu exatamente o que eu disse. Quando voltar para Londres, voltarei sozinho.
Steve se levantou colocou a mochila nas costas. Confusa, Nairne tambm colocou a mochila dela nas costas. Devagar, os dois reiniciaram a rdua subida. Aps cinco minutos de caminhada, Steve comentou:
	Sempre que vejo o garoto, tenho a sensao que estou vendo a me dele. Toda vez que penso no garoto, penso na me dele. E quando penso que toda maldade dela pode estar em Kilty...
	No sei o que Hazel pode ter lhe feito para que se sinta to mal. Mas Kilty no tem nada com isso. Os filhos no so responsveis pelos erros dos pais. O garoto no merece ser tratado desse jeito! Ser que no entende? Pelo amor de Deus, Steve, no se afaste dele! Kilty  seu filho.
 A aflio de Nairne era tanta que ao terminar a frase ela estava gritando.
Steve continuou a caminhar. Em silncio. Nada parecia afet-lo.
No cume da montanha existia um marco feito de pedras empilhadas. Todos que conseguiam chegar at ali, acrescentavam uma pedra ao marco, como se com aquele gesto quisessem dizer a si mesmo: Eu consegui!
Na primeira vez que Nairne estivera ali, ela colocara uma pedra no marco. Na segunda tambm. Mas depois desistira. Bastava-lhe ver devagar o marco crescer. E naquele dia ele estava coberto pela neve.
Nairne colocou a mochila no cho e'olhou a imensido a sua frente. Realmente a Esccia era muito bonita. O sol se pondo tingia o cu de cores fantsticas. O espetculo, para ela, era a reafirmao da presena de Deus.
Tremendo de frio ela disse:
	Chegamos. E ele no veio para c.
	Ser que ele no est subindo pelo outro lado?
	Impossvel. Do outro lado tem um penhasco extremamente perigoso. Kilty no ousaria ir para l sem equipamentos adequados. Acho melhor ns voltarmos.  Neste instante um floco de neve caiu em seus cabelos.  No acredito! Est comeando a nevar. Mas o servio de meteorologia disse que hoje no nevaria.
	Raramente o servio de meteorologia acerta.
	E verdade. Mas vamos embora depressa. A neve agora comeou a cair de verdade e em grande quantidade.
	E Kilty?
	No se preocupe com ele. Tenho certeza que assim que percebeu que iria nevar, voltou para casa. Deve estar muito bem acomodado e agasalhado.
	Espero que voc esteja certa.
A nevasca aumentava cada vez mais. Andar estava se tornando quase impossvel. Por trs vezes eles encontraram pegadas, mas por causa da neve no dava para saber se eram pegadas humanas ou se pertenciam a algum animal.
	Me d sua mo.  Steve por causa do vento forte teve que gritar.
	Pra qu?
	Voc est escorregando muito.
Nairne estendeu-lhe a mo e os dois, devagar, continuaram a caminhada.
	Acho que estou perdida, Steve.  Nairne, que pegara uma lanterna dentro da mochila, tentava iluminar o caminho  frente.
	Nairne, temos que encontrar um lugar para nos abrigar. No podemos ficar andando a esmo.
	Eu tambm acho. Passamos a noite aqui na montanha e amanh cedo a gente volta.
Porm, a noite e a neve tinham tornado aquela montanha inexpugnvel.
	Vamos acabar morrendo congelados.
	No desanime, Nairne. Vamos conseguir achar um abrigo. Mesmo cansada, ela admirava a determinao de Steve. Ele continuava a segurar-lhe a mo com firmeza.
	Para um homem da cidade grande at que voc est me surpreendendo.
	O vento est muito forte. No ouvi o que voc disse  ele gritou.
Nairne repetiu o comentrio e Steve riu.
	Viu s?  por causa do meu sangue escocs!
	Steve, se no estiver errada, acho que a uns cem metros daqui tem um abrigo.
	Ser?
	Est vendo esse tronco de rvore?  Ela iluminava o local.  Mesmo com a neve ele me  familiar.  Vamos seguir  direita.
	Tudo bem. Ns no temos outra opo.
Foram momentos de agonia. A cada passo, uma grande batalha a ser vencida.
	Fora, Nairne! Vamos encontrar o abrigo!
E realmente o abrigo estava l. Coberto pela neve. Exatamente como ela imaginara.
: Estamos salvos, Steve! Salvos!
	Ainda bem. Acho que morreramos de frio aqui fora.
	No pense nisso agora. Passaremos a noite aqui e amanh cedo, se o tempo estiver melhor, faremos o resto do caminho.
	E se o tempo no melhorar?  ele quis saber.
	E melhor no pensarmos nisso agora. Mas no se preocupe, a polcia sabe que viemos para c.
Steve empurrou a porta do abrigo que rangeu ao se abrir. Quando Nairne estava entrando, uma forte rajada de vento os atingiu.
	Entre logo e feche a porta.
J dentro do abrigo, Steve tirou a mochila das costas.
	Eu ajudo voc.  Ele pegou a mochila de Nairne.  Est pesada.
	Um pouco. Mas eu estou acostumada.
	Voc trouxe velas?
	Trouxe, sim. Velas, pilhas para as lanternas...
	Otimo. Ser que tem lenha aqui dentro?
	Com certeza. Faz parte da cultura da regio deixar os abrigos sempre com lenha.  s acender a lareira.
	E voc trouxe fsforos?
	Acha que iria me esquecer logo dos fsforos? Por favor, ilumine a minha mochila.
Steve, enquanto iluminava a mochila de Nairne, tentava divisar aquele abrigo. Era bem maior do que imaginara.
	Achei a caixa de fsforo.
	timo. Vou acender a lareira.
Minutos mais tarde o fogo iluminava o ambiente. Neste instante eles ouviram um barulho.
	Voc ouviu isso?  Nairne perguntou.
	Ouvi, sim. Deve ser o vento l fora.
	No, no foi barulho de vento.
	Ento deve ter sido o barulho de algum animal.
	De jeito nenhum.
-     Ser que tem mais algum aqui dentro?
	Eu acho que sim.
Nairne acendeu a lanterna e comeou iluminar cada canto do abrigo.
	No acredito no que estou vendo!
	O que foi?  Steve que estava colocando mais lenha na lareira perguntou.
	Olha. Olha quem est aqui.
	Meu Deus... Kilty...
Coberto apenas por um fino cobertor, o garoto, em posio fetal, tremia muito.
	Ser., ser que ele vai...  Steve tentava dominar o pnico.
	Calma, ele vai ficar bem.  Apressada, Nairne pegou um cobertor dentro da mochila e cobriu o garoto.
	Vou pegar meu saco de dormir e coloc-lo dentro.
	Faa isso. E muita calma. Se ele acordar, poder se assustar.
Steve pegou o saco de dormir e, com muito cuidado, colocou Kilty dentro dele.
	Pronto.  Ela voltou a colocar o cobertor sobre o garoto.  Agora ele est bem aquecido.
	Mas ele vai precisar comer quando acordar. Voc trouxe comida, Nairne?
	Trouxe nozes, avels, po e vrias barras de chocolate.
	Tudo isso?
	Ah! trouxe ch tambm.
	Ch? ..ele perguntou feliz.  Otimo! Agora  s ir pegar um pouco de neve l fora e derret-la. Ser que tem alguma vasilha aqui dentro?

	Olha ali!  Ela iluminou um canto do abrigo onde vrias panelas velhas se encontravam lado a lado.
	E o garoto?
	Kilty est bem, no se preocupe. Veja, quase parou de tremer e a respirao dele est voltando ao normal.

CAPITULO IX

A luz do fogo iluminava parte do rosto de LSteve e Nairne pde ver que ele estava muito tenso e preocupado quando respondeu:
	... ele vai ficar bom.
	Kilty com toda certeza se abrigou aqui antes da tempestade. As roupas dele esto secas.
	Mas o garoto poderia ter acendido a lareira.
	Kilty devia estar sem fsforos.
	Tambm poderiam deixar fsforos num lugar como esse.
	No sei o que aconteceu, sempre deixam fsforos nos abrigos.
Nairne sentia-se muito angustiada. Kilty estava fora de perigo, mas ele devia ter ido se esconder quando os viu na montanha. E ele era um adolescente to fantstico, to sensvel...
Perto da lareira, Steve parecia perdido em pensamentos. De vez em quando olhava para o fogo para depois baixar a cabea. Deveria ser uma experincia estranha ter ali do lado o filho que tanto rejeitava. Um filho que por pouco no havia morrido de frio.
Nairne daria tudo para poder saber o que ele estava pensando. Apesar de se mostrar distante, Steve Galbraith tinha que sentir algo por Kilty. Era impossvel que o rejeitasse totalmente. E por que no conseguia parar de fitar aquele homem? No restava dvida que Steve estava muito atormentado. Sofria muito. Pelo que pudera entender, a dor era sua eterna companheira. E, alm da me, a responsvel por essa dor eterna era Hazel.
Steve tinha amado muito Hazel Dunbar...
Aquele estria de Steve querer partir para Londres e deixar o garoto na Esccia, sem saber que tinha um pai vivo, continuava incomodando muito Nairne.
Porm, apesar da angstia, Nairne sentia um certo alvio. Sara para procurar Kilty e o encontrara.
Steve se aproximou dela e perguntou:
	Voc trouxe mesmo comida, ou estava brincando?
	No se preocupe, eu trouxe comida.
	Certo.
	Voc est pretendendo acordar o Kilty?  melhor deix-lo dormir.
	No, no vou acord-lo. Acho melhor ns comermos.
H horas no nos alimentamos. E precisamos manter as foras. No sabemos o que vai nos acontecer e nem por quanto tempo ficaremos aqui.
	Daria para voc pegar um pouco de neve? Um ch agora vai ajudar a nos aquecer.
Com uma panela nas mos, Steve abriu um pouco a porta e, rapidamente, pegou a neve.
	Coloque a panela perto do fogo. J j poderemos tomar uma boa xcara de ch.
	E tem xcaras por aqui?
	Se no tiver, tomamos o ch na panela mesmo.
	E uma boa ideia.  Ele colocou a panela no fogo.
O silncio voltou a cair sobre os dois. E foi Steve a quebr-lo, num tom de voz baixo para no acordar Kilty.
	Voc est muito molhada?
	Minhas meias esto meio midas e minhas calas esto molhadas da canela para baixo.
	Eu tive menos sorte: estou encharcado. Vamos tirar as nossas roupas molhadas. Eu as coloco prximas  lareira. Pela manh estaro secas.
	Pode pegar o meu saco de dormir na minha mochila, Steve. Tire a roupa e deite-se.
	E voc?
	Eu me arranjo.  Nairne estava profundamente constrangida.
	De jeito nenhum. Voc vai para o saco de dormir e eu me arranjo.
	Steve, voc est com a roupa toda molhada.
	Eu sei. Mas voc precisa descansar.
	Vamos fazer o seguinte: voc dorme um pouco. Depois eu o acordo e ocupo o seu lugar.  Nairne pensou um pouco e depois continuou:  Assim tambm no vai dar certo. Voc no pode ficar sem roupa e sem coberta com esse frio todo que est fazendo.
	Eu s vejo uma soluo. Seu saco de dormir  grande?
	, sim.  Nairne e Rory costumavam sempre us-lo juntos.
	Ento a gente dorme nele.
	Isso no!  ela protestou.
	Nairne, eu disse que iremos dormir nele. S isso.
	No, eu...
	Voc o qu?
	No acho conveniente.
	E acha que vai poder encontrar algum tipo de convenincia num lugar como esse? Precisaremos sobreviver. E da melhor maneira possvel.
	Mas...
	Nairne, ou voc dorme comigo ou eu vou ficar de cueca ao lado da lareira. A escolha  sua. No sei que tipo de manaco sexual pensa que sou, mas esteja certa: no irei tentar fazer nada com voc. Aqui no  lugar, nem hora! Ainda mais com um adolescente dormindo no mesmo local. Certo?
	... certo... acho que estou me comportando de maneira estpida. Voc s est querendo ser prtico.
- Exatamente.
	Ento, tire a roupa. Vou pegar o saco de dormir. Voc deita e eu preparo o ch.
Nairne, alm do saco de dormir, retirou de dentro da mochila dois saquinhos de ch.
Quando voltou a olhar para Steve, ele estava de costas e apenas de cueca. O fogo clareava-lhe s parte do corpo. E o que ela pde ver a deixou fascinada. Um corpo de uma musculatura bem trabalhada. Nada que se assemelhasse aos homens que possuam uma musculatura muito desenvolvida. No... Steve Galbraith tinha os msculos longos, bem delineados. Perfeitos.
	Est aqui.  Ela estendeu-lhe o saco de dormir.
Steve voltou-se e Nairne teve que conter-se para no dei xar transparecer tudo o que estava sentindo.
	Voc est bem?
	Estou sim...
	Voc no me parece bem, Nairne.  Ele pegou o saco de dormir, colocou-o no cho e, depois de pr as roupas ao lado da lareira, deitou-se.  Continuo achando que voc no est bem.
	 apenas cansao.
Nairne, devagar, foi at  lareira e colocou os saquinhos de ch na gua.
	E o ch?  Steve quis saber.
	Daqui a pouco estar pronto. Quer comer alguma coisa?
	Mudei de ideia, s vou comer quando acordar.
	Isso tudo  medo de engordar?
	Depois de todo exerccio que fizemos, nada que eu coma hoje me far engordar. Mas se quer saber, tenho medo de engordar, sim. Por isso eu me cuido muito.
	Voc pratica algum esporte?  ela quis saber.
	No muito...  ele respondeu meio desolado.  E voc?
	Eu? S ando bastante. Sabia que eu sempre quis aprender Carat?
	Verdade?
	Acho uma luta linda.
	E  linda mesmo. Por que voc desistiu da ideia, Nairne?
	Aqui no temos academia.
	 uma pena...
	E uma pena mesmo.  Nairne segurou os saquinhos de ch pelos barbantes e os balanou.
	Se ns dois soubssemos carat, poderamos lutar um pouco para nos aquecermos.
"Ia ser muito engraado ns dois lutando Carat nesse abrigo, em plena nevasca...", ela sorriu das cenas que vislumbrava em pensamento.
	Do que voc est rindo?
	Acho que eu iria levar a maior surra se ns dois lutssemos.
	A que voc se engana: Carat no depende de fora fsica.
	No?
	No, depende apenas de tcnica. E tcnica tanto o homem como a mulher podem adquirir. Basta treinar.
Nairne foi para o local onde estavam as panelas e encontrou duas canecas de alumnio bem velhas. Aps servir o ch, levou uma caneca para Steve.
	Mas que mordomia...  Ele pegou a caneca.  Obrigado.
	De nada. Pena que eu no trouxe acar.
	Daqui a pouco voc estar se desculpando por no ter trazido aquele pezinhos deliciosos que voc faz.
	Mas eu trouxe. Esto na mochila.
	No acredito, pensei que tivesse trazido po comum.  Steve tomou um gole da bebida.
	Pois pode acreditar. Trouxe os meus pezinhos. Quer um?
	Obrigado, quando acordar eu aceito.
	 incrvel como o ch aquece... J pensou o que seria de ns se no fosse o ch?
	O inverno ficaria bem mais difcil...
Os dois terminaram de tomar a bebida em silncio.
	E voc, Nairne? No vai comer?
	Estou sem fome.
	Ento venha se deitar.
Pronto! O momento mais difcil havia chegado. Mas ela precisava ser prtica! Muito prtica!
Nairne pegou as canecas que haviam usado e as colocou sobre uma mesinha tosca. Depois, sem pensar muito, tirou as botas, as meias e, finalmente, as calas.
H mais de meia hora Nairne fingia dormir. E h mais de meia hora sabia que Steve tambm fingia dormir.
	Est tudo bem com voc?  ele perguntou.
	Est, sim.
Nairne ficou em silncio. Ento ela no se enganara: Steve tambm estava acordado. De costas, olhando para o teto, sem se mexer, os dois continuaram conversando:
	Estou preocupado.
	Kilty ficar timo. Vai ver quando ele acordar.
	Minha preocupao agora no  com Kilty.
	E com o que , ento?
	Estou preocupado com Shadow.
	Ela deve estar bem. Antes de sairmos liguei para a minha irm e pedi que cuidasse de Shadow at que volts semos.
	H quanto tempo Shadow est com voc?
	H oito anos. Foi o presente de casamento que Kevin, o meu sobrinho, me deu.
	Sua irm se casou bem antes que voc...  ele comentou.
	No, ns tivemos um casamento duplo. Foi lindo.
	Mas Kevin deve ter uns onze ou doze anos...
	Ele tem onze anos. Mas deixa eu lhe explicar direito: Adam no  o pai verdadeiro de Kevin. Esse  o segundo casamento da minha irm. O primeiro marido dela, Drew Ferguson, era um amigo de infncia. Os dois fugiram para o Canad e Kevin nasceu em Toronto. Drew faleceu. Kyla, ento, resolveu trazer o filho para que conhecssemos. A, conheceu Adam e se casaram pouco tempo depois.
	Quer dizer ento que Adam  o segundo marido dela?  Steve estava espantado.  Os dois parecem muito felizes.
	Os dois foram feitos um para o outro.
	Feitos um para o outro...  Steve sorriu de maneira cnica.  Voc realmente credita que duas pessoas possam ser feitas uma para a outra? Acredita mesmo em almas gmeas?
	Acredito, acredito, sim  ela respondeu de maneira firme.  Acredito de todo corao que existem pessoas que foram feitas uma para a outra.  a isso que est chamando de almas gmeas, no ?
	E se algum se casa mais de uma vez? Ser que existe mais de uma alma para cada pessoa?
Nairne percebeu que Steve ironizava, mas no se abalou:
	Sabe, Steve, acho esse assunto muito complicado.
	Complicado... Mas voc deve pensar algo a respeito.
	Bem, o que acho mesmo  que existe algum, algum especfico no mundo, que ser o par ideal para uma determinada pessoa.
	Drew, fazia o par ideal com Kyla?
	No.  Nairne respondeu num tom baixo de voz.  Drew amava a minha irm. Kyla, por sua vez, amava muito Drew, mas no com a mesma intensidade. Como eu lhe disse, os dois se conheciam desde criana. Minha irm amava o marido como se ama a um bom amigo. Com Adam a coisa foi diferente. Com Adam, Kyla aprendeu o real significado da palavra amor. Adam, sim,  a alma gmea da minha irm.
	Duas partes que se juntam para formar um todo per feito... como voc e o Rory...
Nairne no respondeu ao comentrio de Steve. De repente ela sentia um imensa vontade de chorar. Descobrira que, apesar de se dar muito bem com o marido, apesar de amarem-se muito, os dois no eram almas gmeas. Trabalhavam em harmonia, tinham uma vida em comum tranquila, respeitosa, mas no eram almas gmeas. S que ela no sabia disso enquanto estivera casada com Rory. Talvez, se ainda continuassem casados, continuaria acreditar que tinham sido feitos um para o outro. Agora se dera conta que sempre faltara algo em seu casamento. Paixo. A relao que tivera com o marido no fora uma relao apaixonada.
E isso tudo ela descobrira ao encontrar Steve Galbraith.
Steve apoiou-se em um dos cotovelos e a fitou.
	Voc... voc est chorando... Me desculpe, no deveria ter tocado no nome do seu marido... Fui muito indelicado. Estou me sentindo culpado.
	Por favor, no se sinta culpado. No foi porque tocou no nome de Rory que estou chorando.
	No? Ento, por que as lgrimas?
Como dizer a Steve tudo o que estava sentindo? Como dizer a ele que havia descoberto que no tivera uma relao apaixonada com Rory?
Nairne deu um profundo suspiro. Ainda bem que s conhecera Steve agora. O que teria acontecido se o conhecesse quando ainda estava casada com Rory? Apesar de ter certeza que iria conseguir se manter afastada de Steve, Nairne tambm tinha certeza que viveria uma situao delicada, uma situao de muito sofrimento.
	Desabafe, Nairne... As vezes  muito bom falar.  Ele acariciou-lhe os cabelos de leve.  Me diga, o que est errado? Qual  o problema?
"O problema  voc, Steve Galbraith. Voc!", ela teve vontade de gritar. "Por qu? Por que tenho que me sentir assim quando me toca? Por que tenho essa estranha sensao que o conheo desde sempre? Por que fico fantasiando que seria maravilhoso passar o resto da minha vida ao seu lado?"
	No existe problema nenhum, estou apenas cansada  Nairne finalmente respondeu.  O dia hoje foi terrvel. Fiquei desesperada quando soube que Kilty tinha vindo para c.
	Eu vi...
	Gosto muito desse garoto.
Steve ficou calado. Nairne se perguntava o que estaria passando pela cabea dele. Impossvel saber.
	Bem, acho melhor dormirmos  ela disse.  Boa noite, Steve.
	Boa noite, Nairne.
Muito surpresa, Nairne acordou. Havia dormido! Tinha conseguido dormir apesar de tudo! Ela olhou para o relgio de pulso: oito horas!
Olhando para o abrigo, logo descobriu porque havia acordado: Steve, j totalmente vestido, colocava lenha na lareira. E ele deveria ter feito aquilo a noite toda, pois ela no sentira o mnimo de frio. E Kilty? Como estaria?
Ela virou-se e viu que o garoto continuava dormindo. Que bno do cu fora encontr-lo. Se Kevin no o tivesse seguido... Bem, melhor seria no pensar em tal possibilidade. Logo os trs poderiam ir embora.
	Quer dizer que voc acordou  Steve disse bem baixinho.  Dormiu bem?  Ele agachou-se ao lado de Nairne.
	Muito bem. Mas estou me sentindo um pouco culpada.
	De qu?  Steve sorriu.
	No me levantei nenhuma vez pra pr lenha na lareira.
	Eu fiz isso com muito prazer. Voc estava exausta.
Emocional e fisicamente. E foi muito bom ouvi-la roncar.
	Eu? Roncar?
	Sim, senhora.
	Eu no ronco, sr. Galbraith.
	Isso  o que pensa, sra. Campbell.  Steve foi pegar uma caneca de ch e a entregou  Nairne.
	Obrigada.  Ela sentou-se.
	De nada.  Steve tambm sentou-se ao lado dela.
De repente, ao imagin-lo com Hazel, Nairne sentiu uma dor imensa dentro do peito. E no pde conter a pergunta:
	Voc a amava?
Steve de imediato soube a quem Nairne se referia. Ele deitou-se sobre o saco de dormir, colocou as mos atrs do pescoo, fechou os olhos e respondeu aps um longo silncio:
	Muito. Mas muito mesmo. Foi um sonho lindo. Um sonho que se transformou num horrvel pesadelo.
Nairne sabia que naquele momento no podia preferir nenhuma palavra. Tinha que respeitar o momento que Steve vivia. Talvez ele nunca tivesse dito aquilo a ningum antes. O nico som que podia ouvir era o da respirao cadenciada de Kilty e as batidas do seu prprio corao.
	Naquele ano, vim para c logo no incio do vero.
Queria investir em algumas terras e a Esccia me atraa como um im.
	E por que voc escolheu Glencraig?
	No sei... Me apaixonei por esta regio assim que cheguei aqui. A, peguei o meu carro e comecei a andar pelo campo. Quando vi o estado que se encontrava as terras e a casa da propriedade que acabei comprando, logo percebi que estaria  venda. Lembro que peguei o carro e, dirigindo, sa cantando pelas estradas de terra. Em um determinado momento eu parei e fui me deitar sob a sombra de uma rvore imensa. No sei quanto tempo fiquei l de olhos fechados, sonhando, imaginando o que poderia fazer quando comprasse Craigend. Ao abrir os olhos, tinha diante de mim uma criatura belssima. S pode ser uma fada, eu pensei, um esprito bom que toma conta dessas terras. A, ela perguntou: o que est fazendo aqui, forasteiro? E eu respondi: esperando por voc. Foi amor, um grande amor  primeira vista.
	Ela tambm amava voc?
	Dizia que sim. Mas s fiquei sabendo de Hugh dias depois. Ela me prometeu que terminaria a relao com ele assim que chegasse da pescaria. E na ltima noite que fiquei aqui, nos tornamos amantes. Quando parti, levava a escritura de Craigend no bolso e, no corao, Hazel Lindsay.
Nairne pensou que Steve no fosse lhe contar mais nada. Ele, porm, continuou:
	A ela me escreveu.  O tom de Steve era spero,
atormentado.  Escreveu para me dizer que Hugh era o homem da sua vida. Que tinha percebido isso assim que Hugh voltara da pescaria. Dizia que o nosso relacionamento tinha sido um grande erro e que, na verdade, no tivera o menor significado para ela. Disse tambm que no queria mais me ver e que Hugh e ela se casariam logo. Hoje, felizmente,, quase j a perdoei pelas mentiras. Mas o fato de ter me escondido que estava grvida... Ah, isso eu nunca vou perdoar! Foi egosmo demais daquela mulher! Eu tinha o direito de saber!
De repente um soluo se fez ouvir. A princpio, Nairne pensou que o soluo fora dela, tamanha era a aflio que sentia por tudo o que acabara de saber. Mas no, o soluo viera dos lbios de Kilty que agora se encontrava deitado de bruos. O garoto estava acordado!
	Isso no podia ter acontecido.
	No, no podia! De jeito nenhum!  Steve se levantou.
	Eu j sabia que voc era meu pai.  A voz do garoto era entrecortada pelos soluos.  Fui eu quem...  Kilty no conseguiu terminar a frase.
Por alguns segundos ningum falou.
	Quer dizer, ento, que foi voc quem contratou um advogado para tentar me encontrar... Pensei que sua me tivesse feito isso antes de morrer.
	No, fui eu.
	E como conseguiu dinheiro, Kilty?  Nairne perguntou espantada.
	Vendi minha mquina.
	Quer dizer ento que vendeu a mquina fotogrfica para..
	Vendi. Eu nunca consumi nenhum tipo de droga. E tambm parei de fumar.
	Mas no estou entendendo um detalhe nesta estria toda: por que sua me resolveu lhe contar isso tudo?
	Ela nunca me falou nada a respeito.
	No?  Foi a vez de Steve ficar espantado.
	No. Quem me contou toda a verdade foi o meu pai quando estava morrendo. Papai me disse que quando depois do casamento percebeu que minha me estava grvida, soube que o filho no era dele. Mas papai se calou. Nunca fez o menor comentrio. E minha me nunca lhe contou a verdade, nunca lhe contou que tivera um amante.
	E como foi que descobriu que eu...
	Meu pai me disse que tinha um palpite. Achava que meu pai verdadeiro deveria se chamar Somerled. Quando nasci minha me quis me dar esse nome. Nada fez com que mudasse de opinio. Dizia que era um nome muito bonito.
	Mas...  Nairne estava totalmente desentendida.
	Ele se chama Steve Somerled Galbraith  o garoto explicou  Nairne.  O advogado fez algumas pesquisas e o encontrou.
A porta do abrigo se abriu.
	Graas a Deus! Graas a Deus vocs esto aqui! Era Adam quem acabara de entrar.  Estava temendo o pior. A nevasca dessa madrugada foi a mais forte dos ltimos dez anos.
	Mas Adam, Kyla me disse que voc estava viajando!
	Cheguei antes do previsto. E para um homem da cidade, at que se saiu muito bem...  Adam apertou a mo de Steve.
	Homem da cidade? Mas ele j escalou o monte Everest quando tinha vinte e quatro anos! Foi o primeiro da expedio Carrington a chegar l em cima.  Kilty comentou.
 A, precisou abandonar o alpinismo porque quebrou os dois tornozelos depois de ter salvo Nick Carrington na mesma expedio.
	Ento... ento no poderia ter feito tanto esforo, Steve.
	Estou muito bem, no se preocupe. Acho bom agora ns comermos alguma coisa. Estou com muita fome.

CAPITULO X

Nairne foi para debaixo do chuveiro. Quando a gua aqueceu-lhe o corpo, deu um suspiro prazeroso. Fechando os olhos, comeou a pensar em tudo o que havia acontecido. Felizmente estavam salvos. E em casa. Felizmente Steve no tivera o menor problema com os tornozelos ao fazer a difcil descida da montanha.
Para Nairne, tinha sido um choque descobrir que ele fora um alpinista de renome. Steve estivera na famosa expedio Carrington. Na poca, ela ainda frequentava os bancos escolares, mas lembrava-se muito bem de tudo o que acontecera. A televiso havia feito muita divulgao do evento e os noticirios s falavam do resgate herico executado por Steve. Na poca, ela deveria ter a idade de Kilty.
Ah, Kilty...
Piscando vrias vezes, Nairne comeou a pensar na triste situao que Kilty e Steve viviam. Como a vida s vezes podia ser to cruel? O garoto merecia uma chance de viver com o verdadeiro pai. No entanto, Steve parecia mesmo disposto a viver eternamente mergulhado nas dolorosas recordaes de um passado equivocado. Mas o problema no era dela!
Nairne deu um profundo suspiro. Sim, o problema tambm era dela, no havia como negar. Steve no poderia simplesmente ir embora. Aquilo era triste demais. Kilty se sentiria muito rejeitado; e o garoto no passava de uma vtima daquilo tudo. Bem, se Steve realmente no quisesse ter o menor contato com o filho, adotaria o garoto.
Nairne colocou shampoo nas mos e o passou pelos cabelos. Enquanto massageava a cabea, comeou a sentir-se aflita. Adotar Kilty no seria a melhor soluo. O garoto precisava de um modelo masculino. Precisava de um pai!
Se Steve superasse a dor que ainda o corroa, a, sim, o problema poderia ter uma soluo. Mas, pelo jeito, Steve jamais superaria o que lhe acontecera. Muitos anos. Muitos e muitos anos haviam se passado e ele ainda se remoa em rancor. E o dio que Steve sentia por Hazel aumentara muito mais depois que soubera que ela lhe escondera a gravidez, escondera que era pai.
Nairne enxaguou os cabelos. Deixara Steve e Kilty na cozinha tomando a sopa de legumes com bacon que Kyla lhes trouxera.
Quando Steve descera para a cozinha, logo depois que Kyla tinha ido embora, usava jeans e um suter de cashmere preto. Recm-barbeado, sua pele estava bem lisa e Nairne teve muita vontade de acarici-lo.
Porm, o corao dela quase havia parado, quando Kilty aparecera na cozinha. Como sempre, Kilty usava saia e uma camiseta. Porm, o garoto no estava usando o produto com o qual coloria os cabelos. Apenas os lavara e os penteara para trs. E a semelhana... a semelhana entre os dois era inacreditvel... E no apenas as feies eram muito semelhantes. Mas os gestos, a maneira de falar, o sorriso...
	Nairne!
S ao ouvir que a chamavam, ela percebeu que j estava de robe. Tinha ficado to concentrada em seus pensamentos que terminara o banho, se enxugara e se vestira de maneira automtica.
	Nairne!  Era Steve quem a chamava, mas agora batia com insistncia na porta.
	O que foi?
	Voc est vestida?
	Estou, mas ainda vou demorar um pouco.
	Posso entrar?
Nairne estranhou aquele pedido.
	No daria para esperar mais um pouco?
	Infelizmente, no.
	Entre.  Assim que Steve entrou no banheiro, ela perguntou:  Mas o que est acontecendo?
	Vou embora.
	Voc vai o qu?
	Vou embora. Agora!
	No, voc no pode fazer isso  Nairne disse.
	Eu preciso ir. Ele me idolatra.  O rosto de Steve estava desfigurado pela tenso.  Kilty... Enquanto ns estvamos comendo ele comeou a falar. E falou muito. Entre outras coisas disse que tem todos os trabalhos feitos por mim que foram publicados quando eu me dedicava  fotografia.
	Steve, calma. Voc est muito nervoso.
	No d para ficar calmo, Nairne. Kilty disse que sempre admirou muito o meu trabalho e que fui a fonte de inspirao dele.
	Meus Deus... Quer dizer que isso aconteceu antes...
	Antes de Kilty saber que eu era o pai dele.  Steve completou-lhe a frase.  Disse que uma vez viu uma velha revista com um fotografia que eu fiz e ficou encantado. Por isso comeou a fotografar. A, quando descobriu que o homem que admirava tanto era seu pai verdadeiro... e que esse homem, havia trado a sua me, Kilty achou que a estava traindo e se sentiu muito culpado.
	Mas se ele estava se sentindo to culpado, por que pediu ao advogado que entrasse em contato com voc? Foi o que aconteceu, no foi? No foi atravs do advogado que ficou sabendo que tinha um filho?
	No, Nairne, no foi assim que aconteceu. Kilty s queria descobrir a verdadeira identidade do pai. Nada mais que isso.
	Mas por qu?
	Kilty tinha certeza que o pai sabia da existncia dele e havia abandonada o sua me. Antes de ficar sabendo que eu era o pai dele, Kilty odiava esse pai que pensava t-lo abandonado. Mas depois que soube que Steve Somerled Galbraith, seu grande heri, era seu verdadeiro pai, ficou muito confuso. Uma parte de sua mente o obrigava a continuar me odiando. A outra, no podia desistir da imagem que tinha de mim.
	Deve ter sido terrvel para Kilty... Pobrezinho...
	A firma de advocacia que estava trabalhando para Kilty contratou um investigador particular que comeou levantar todo o passado de Hazel. Ele comeou as investigaes,  bvio, no perodo anterior ao nascimento de Kilty. Verificando o livro de hspedes de um dos hotis, encontrou o meu nome. Foi fcil para o investigador encontrar o meu endereo em Londres. O homem, ento, resolveu fazer algumas perguntas no bar prximo  minha casa. O garom, que  muito meu amigo, desconfiou que algo estava acontecendo. O investigador disse que talvez eu fosse pai de um garoto em Glencraig.
	O investigador fez isso?
	Fez. No era para fazer, mas fez.
	Quando foi que Kilty comeou a procurar por voc?
	Logo que Hugh morreu. Mas eu s vim saber o que estava acontecendo h pouqussimo tempo. Me encontrava fora do pas. Depois que o meu amigo garom me contou tudo, tambm contratei um investigador particular e ele logo chegou em Ken Bain, o advogado de Kilty. Telefonei para Ken Bain, que no confirmou a estria do meu amigo garom.
	A, Ken Bain entrou em contato com Kilty.
	Entrou.
	Ento foi por isso que o garoto no quis viajar.
	Exatamente. O advogado lhe disse que desconfiava que eu estava a fim de vir at aqui. E o advogado estava certo: eu precisava verificar direito essa estria toda. E agora... agora eu vou embora. A finalidade da minha viagem j foi cumprida.
	Sinto muito, Steve, mas voc no pode ir embora. Ainda no...
Steve sorriu, um sorriso muito triste. E disse, enquanto acariciava o rosto de Nairne com as costas da mo:
	No podemos nos separar do passado... O passado sempre ir nos perseguir...
Nairne, aflita, o viu afastar-se. Quando Steve fechou a porta atrs de si, ela mal conseguia respirar. No, ningum podia se separar do passado, mas o passado poderia ser aceito. E, se Steve no estivesse preocupado com o prprio futuro, deveria estar preocupado com o futuro de Kilty.
	No, Steve no pode ir embora! Se for, ter que levar o filho! No vou deix-lo partir!
Mas como impedir a partida de Steve?
Nairne no sabia.
Ela foi para o quarto e, diante do espelho, viu que seu rosto estava vermelho e os olhos brilhavam de maneira diferente. Mordendo o lbio inferior, ligou o secador. Precisava se apressar. No podia perder tempo. Steve tinha que mudar sua deciso. Kilty era um garoto sensvel, talentoso e precisava do pai. Ainda mais agora que sabia de toda a verdade, que sabia que jamais fora abandonado.
Ao chegar na cozinha, Nairne encontrou com Kilty que estava de sada.
	Onde voc vai, querido?
	Para a escola. So duas horas, ainda poderei assistir algumas aulas.
	E voc volta para casa depois?
	Mas  claro que sim. E no vou mais me encontrar com ele. J nos despedimos.
Nairne colocou a mo sobre o ombro do garoto e perguntou:
	Voc no quer que ele v, no ?
	No posso fazer nada, Nairne.
	...
	Mas ele disse que posso ficar com a mquina fotogrfica. Disse que  um presente.
	Kilty, vou tentar fazer que Steve fique mais um pouco.
Tenho certeza que se conviver mais com voc, passar a am-lo. Ele s precisa de tempo...
	Desista, Nairne... Ele nunca vai me amar.  Kilty abriu a porta da cozinha.  Steve tem muito dio dentro dele. E eu entendo... Tambm j senti muito dio...
	Kilty...
Nairne, no precisa dizer nada. Agora eu vou para a escola.
O garoto se afastou. Nairne sentia-se totalmente impotente. Mas no deixaria aquela impotncia momentnea influenciar sua deciso.
Nairne bateu na porta do quarto de Steve.
	Pode entrar.
Devagar, ela abriu a porta e perguntou:
	Est precisando de ajuda?
	No, minha bagagem  pouca. J arrumei tudo, obrigado.
Nairne deu uma olhada para Steve. Ele j estava de casaco, pronto para partir. O quarto, muito bem arrumado, no tinha vestgio de que fora ocupado. Nairne sabia que se ele entrasse no carro, jamais voltaria pr os ps em Glencraig.
	Pelo jeito voc no v a hora de estar bem longe daqui.
	Bem, no sei se  exatamente isso que eu diria, mas...
	No,  exatamente isso que quer fazer: ir para bem longe daqui! E eu sei a razo.
	Sabe? Talvez voc possa fazer o favor de me explicar esse meu comportamento, digamos..., arredio  ele ironizou.
	No, no tenho nada para lhe explicar. Voc  um homem adulto, inteligente e sabe que est morto de medo!
	Eu? Com medo? De qu?  Ele sorriu.
	Das suas...  Nairne no terminou a frase. Talvez estivesse indo longe demais.
	Vamos, continue... Do que  que eu estou morto de medo?
	Voc... voc est com muito medo de suas prprias emoes.  isso que est acontecendo! Fugir  mais fcil. Tenho certeza que j andou pensando em como ajudar Kilty a desenvolver todo o talento que tem, j andou pensando se seria capaz de deix-lo um dia, caso no partisse imediatamente. E sabe por qu? Porque o geleira que sempre existiu dentro do seu peito comeou a derreter. No, pensando melhor, voc no est morrendo de medo: voc, Steve Galbrith, est apavorado!
E voc, Nairne Campbell, est totalmente equivocada! No estou morto de medo, no estou apavorado. Estou, sim, muito triste. Triste com a vulnerabilidade do ser humano, triste com o rumo que a vida toma independentemente da nossa vontade. Triste por saber que o amor nos trs muita dor, muito sofrimento. Uma vez me prometi que nunca mais sentiria nada por ningum e...
	Mas voc j est sentindo.  A voz de Nairne soou de maneira angustiada.  Posso ver isso em voc agora, pude ver na maneira em que olhava para Kilty hoje l no abrigo.
	J que  to sensvel, Nairne, tambm j dever ter percebido o quanto a desejo. Tenho muito vontade de tom-la nos braos e fazer amor com voc.
	Mas eu...
	No minta para voc mesma.  Steve a abraou. 
Nairne sabia, sim, que ele a desejava. E sabia muito bem que ela tambm o desejava. Mas no existia futuro para os dois. Steve continuava preso  Hazel, a um amor que vivera no passado e nunca o deixaria livre para amar outra mulher. Mas quem havia falado em amor? Steve apenas mencionara a palavra desejo.
	Voc  uma bruxa.  Ele beijava-lhe os cabelos.  Uma bruxa que jogou algum feitio em mim... E s Deus sabe como quero escapar desse feitio.
	Quer mesmo escapar, Steve?
	Neste momento, no. A nica coisa que no quero fazer nesse momento  escapar de voc.  Steve agora acariciava-lhe o corpo todo.
Nairne percebeu ento que precisava acabar com aquilo. Se continuassem, iria se arrepender pelo resto da vida. Mas ela no tinha foras para se afastar. Tambm sentia-se enfeitiada por um homem que viera de Londres e lhe mostrara o que era a paixo.
	Voc quer...  ela disse baixinho, enquanto Steve a encaminhava para cama.
	Quero. Quero muito fazer amor com voc.       
Ao sentir o corpo de Steve sobre o seu na cama, Nairne fechou os olhos.	
	Voc  linda, linda...  Devagar ele a despia.   
	Steve, no v embora hoje.
	No vamos falar sobre isso agora...
	Mas  importante para mim  a voz de Nairne era apenas um sussurro.  Fique pelo menos at amanh. Por Kilty...
	E por voc? Voc tambm quer que eu fique?
	Quero... Muito...
	Ento eu fico, Nairne. Eu fico...
	Voc me promete?
	Prometo. Mas agora vamos esquecer a vida l fora.
Nairne se entregou s carcias de Steve. Quando nus, os dois mal distinguiam as dimenses dos prprios corpos, Nairne abriu os olhos e viu a aliana em sua mo. A aliana que usava desde do dia que se casara com Rory. E ela sentiu-se profundamente culpada.
	O que aconteceu?
	Sinto muito, mas no podemos continuar, Steve. Me sinto como se estivesse...
	Traindo Rory.
	 exatamente isso que est acontecendo. Me desculpe.
	No se preocupe, posso entender o que est sentindo. No deveria ter forado a situao.
	Voc no forou a situao Steve.
	Nairne, fazer amor  algo muito importante. Mas para que duas pessoas realmente faam amor, tanto o homem quanto a mulher precisam desejar um ao outro.
"Mas eu desejo voc, Steve. S preciso de tempo", ela pensou. Mas no poderia dizer aquelas palavras em voz alta. Tinha vergonha de expressar algo to profundo, to ntimo.

CAPITULO XI

Nairne estava na sala de visitas lendo.  Boa noite, Nairne. Estou indo para a cama.
	Voc j vai dormir?  A voz de Kilty tinha vindo de trs. Nairne virou-se e sorriu para o garoto.
	J vou, sim.
	E o quarto que voc est transformando em laboratrio fotogrfico?
	J est tudo arrumado. Obrigado por ter me deixado ocupar aquele espao.
	Imagine... Aquele quarto estava desocupado h anos.  s arrumarmos a torneira da pia e ele ficar perfeito. Voc gostou mesmo dos aparelhos para revelao que Steve lhe comprou em Inverness?
	Gostei, gostei, sim. No dava para no gostar. Eles so excelentes.
Nairne teve a sensao de ouvir um tom de tristeza na voz de Kilty. Quando havia chegado da escola, ele dera um grande sorriso ao ver que Steve ainda estava em Bruach. Mas Steve, imediatamente, lhe dissera que s ficaria at o dia seguinte. Para justificar aquela mudanas de planos, acrescentara que preferia viajar pela manh quando as estradas se encontravam mais tranquilas. No entanto, contrariando as expectativas de Nairne, Steve convidara o filho para irem at Inverness fazer algumas compras. Os dois tinham retornado da cidade vizinha s nove e meia e, como haviam jantado fora, logo comearam a arrumar o quarto que seria o laboratrio fotogrfico de Kilty.
Nairne, mesmo querendo muito participar da arrumao do quarto, resolvera ficar na sala lendo. Por volta das dez horas fora at a cozinha tomar uma xcara de ch e de l pde ouvir os dois conversando. Kilty, com um tom de voz contido, parecia tentar controlar as emoes. Mesmo assim o garoto fazia perguntas, muito interessado nos aparelhos que havia ganho. Steve, por sua vez, respondia s perguntas num tom de voz baixo e mostrava todo o seu vasto conhecimento sobre a arte de fotografar. A relao de pai e filho parecia estar se estabelecendo pelo o que tinham em comum: a fotografia.
Enquanto ficara tomando ch na cozinha, Nairne havia se controlado muito para no chorar. Era muito bom perceber que Kilty estava vido pelo amor do pai. Mas era triste demais perceber que Steve ainda lutava para no dar esse amor ao filho.
	Tudo bem com voc, Nairne?
	Est tudo bem, sim.
	Voc de repente ficou quieta e...
	Estava pensando no romance que estou lendo.  Ela precisou mentir.  E uma linda estria.
	Acho que atrapalhei voc.
	De jeito nenhum.  Ela fechou o livro e levantou-se.  Onde est Steve?
	Ele disse que ia subir para o quarto.
	Ah...  Steve tinha ido dormir. E Nairne no pde conter o desapontamento. Todo o tempo que ele estivera
com Kilty, fazendo compras em Inverness, tentara ler o romance que ainda tinha nas mos. Mas fora em vo, no havia conseguido se concentrar. Depois, quando os dois haviam chegado, retornara  leitura e, mais uma vez, seus pensamentos a traram: a imagem de Steve no a abandonava. S agora percebia que o tempo todo estivera esperando poder ficar sozinha de novo com ele.
	Bem, eu tambm vou subir.
	Tenha uma boa noite, Kilty.
	Obrigado, Nairne. Tenha voc tambm uma boa noite.
Nairne foi para a cozinha e comeou a lavar algumas louas que havia deixado sobre a pia.
Steve. Sempre Steve. Era muito difcil no pensar naquele homem que de repente invadira sua vida. Era muito difcil aceitar que na manh seguinte ele estaria partindo para nunca mais voltar.
A vida era realmente muito estranha. Ser que Steve no poderia arrumar uma maneira de manter mais contato com o filho? Pelo jeito nada o impedia de ficar ali por mais algum tempo.
Nairne continuou lavando a loua pensando em como seria bom se Steve ficasse. Naquele dia ele resolvera comprar muito equipamentos para o filho. Teria sido uma forma de compensar o garoto? Quando os pais iriam aprender que os filhos no precisavam apenas de presentes, mas sim de uma presena constante? Era claro que todos aqueles equipamentos iriam ajudar muito Kilty, mas no eram suficientes para aplacar a rejeio que na certa o garoto estava sentindo.
Nairne guardou a loua e resolveu ir ver como ficara o quarto que havia cedido para se transformar em um laboratrio.
	Kilty esqueceu a luz acesa  ela disse baixinho e, ao empurrar a porta, levou um grande susto.  Voc? Voc aqui? pensei que Kilty tivesse esquecido a luz acesa.
	Pois ... Tinha ido dormir, mas a resolvi voltar para verificar esse ampliador. Ele  muito bom.
Steve se encontrava de costas para Nairne, e ela sentiu uma imensa vontade de abra-lo por trs e sentir o calor daquele homem que, agora sabia, amava tanto. Mas no ousou dar um passo sequer.
	Venha, quero lhe mostrar como isso funciona.
Steve comeou a explicar-lhe o funcionamento do ampliador.
	 o melhor que existe.  Ele comentou ao terminar a explicao.  Kilty vai ter muito com o que se divertir.
	Steve, me diga uma coisa: por que parou de fotografar?
Voc tem muito talento. Lembro-me que ficou muito chateado ao saber que Kilty tinha desistido.
	No desisti da fotografia por escolha, Nairne.
	Bem, d para entender que desistiu do alpinismo por causa dos tornozelos. Mas para fotografar no se usa o tornozelo, no ?  ela brincou.
	Acontece que alpinismo e fotografia para mim estavam intimamente relacionados. A, aconteceu o acidente. Fui vencido pela montanha.
	Mas voc poderia ter comeado a se dedicar a outro tipo de fotografia.
	E verdade... Acontece que fotografia para mim sempre se relacionou com desafio. O desafio do melhor ngulo, da paisagem que poucos olhos humanos poderiam ver... Alm disso...  Steve fez uma pausa e ficou meio ausente.
	O que aconteceu? Voc de repente ficou preocupado.
 
	No, no fiquei preocupado. Acontece que h muito tempo no penso no acidente.
	Foi muito difcil para voc, no foi?
	Foi, sim.
	Mas voc anda muito bem.
	Eu sei. Fiz fisioterapia durante muito tempo. Mas meu olho...
	O que aconteceu com o seu olho?  Nairne perguntou aflita.
	No acidente, bati a minha cabea com muita fora e perdi a viso em um dos olhos.
	Meu Deus...
	No precisa ficar desse jeito  ele disse ao perceber a aflio de Nairne.  J estou acostumado a enxergar com um olho s. Na poca do acidente, entrei em uma de presso profunda, mas agora me recuperei totalmente.
	Deve ter sido terrvel...
	Foi. Muito terrvel. A, depois de me conformar que no poderia fazer o que mais amava, resolvi executar os planos que tinha para o futuro e comecei construir chals. Felizmente tive muito sucesso.
	No  estranho?
	O que  estranho?
	Acho muito coincidncia voc ter um filho que adora alpinismo e fotografia.
	 verdade... Acho que um dia Kilty vai ganhar muito dinheiro se continuar fotografando.
	Steve, voc descobriu por que ele pegou a sua pasta naquela manh?
	Descobri. Kilty me contou tudo hoje. Ele queria saber o meu nome inteiro. Foi por isso. Depois de ver os meus documentos, teve certeza que eu era o pai dele.  Steve mudou completamente de assunto:  O luar est bem forte l fora. Com tanta luz d para ver se Kilty e eu transfor mamos esse quarto num bom laboratrio fotogrfico.  Ele puxou a cortina preta que havia instalado em frente  janela e apagou a luz.
Steve fez tudo aquilo muito depressa e, quando se deu conta do que havia acontecido, Nairne estava num local completamente escuro e sentiu-se sufocada.
Sem saber o que fazer, ela deu um passo para frente e se chocou com Steve.
	Calma, no d para ficar andando de um lado para o outro num quarto escuro.
	Desculpe... Machuquei voc?
	No, voc no me machucou. Mas fique parada, preciso ver se est entrando luz por alguma fresta.
	No seria melhor fazer isso durante o dia?
	A rigor, sim. Mas estou morrendo de vontade de verificar se est ou no entrando luz aqui.
Steve deu um suspiro de satisfao.
	O que foi?
	Acho que se Kilty quiser, logo vai poder comear a trabalhar. E s arrumar a torneira da pia. Pelo jeito no est entrando luz.
	... est muito escuro.
	Voc tem medo de escuro?
Nairne percebeu que Steve se aproximava dela.
	No...
	Nem quando era criana voc sentia medo do escuro?
	Quando era criana, sim.
	E por que voc tinha medo de escuro quando era criana?  Steve tocou-lhe o rosto de leve.
	Minha av me contava estrias encantadas. E me falava sobre bruxas e coisas desse tipo.
	Quer dizer ento que tinha medo de bruxas?
	At entender o que elas realmente foram, sim.
	Nairne, eu quero lhe abraar.  Steve ainda no tinha terminado a frase e j estava com Nairne nos braos. E ficou daquele jeito, apenas abraando-a por longos segundos.
Nairne sentia-se no cu. Era bom, bom demais estar to prxima do homem amado. H muito tempo no sentia-se to protegida. Steve tinha a capacidade de despertar-lhe um sentimento h muito esquecido. Ele tinha a capacidade de faz-la sentir-se como uma criana.
	Por que est tremendo? ele perguntou.
	No sei...
	Est com frio?
	No. Acho que estou emocionada.  Nairne queria dizer tudo o que estava acontecendo em seu ntimo. Porm, mais uma vez, faltou-lhe coragem.
	Por que tanta emoo?
	Estou feliz por Kilty.  Apesar do que estava dizendo ser apenas uma parte da verdade, Nairne continuou:  Ele deve estar se sentindo profundamente agradecido a voc.
	Por qu? S porque lhe comprei esse material todo?
	No, porque voc reconheceu que ele tem talento. E isso  muito importante para qualquer um. A maioria das gessoas nunca  incentivada naquilo que realmente gosta. E por isso que o mundo est repleto de gente insatisfeita.
	E voc est insatisfeita, Nairne?  Ele beijou-lhe a cabea.
	No, eu gosto do que fao. Ultimamente tenho pensado em plantar mais flores aqui em Bruach. Espao para isso no falta. Acho que conseguiria ganhar mais dinheiro com isso. Alm,  lgico, de eu adorar flores.
	Acho uma excelente ideia.
	Alm de tudo, tenho timos ajudantes.
	Voc gosta muito dos garotos, no ?

	Gosto, sim. E sinto muita falta de todos. Mas logo eles estaro de volta.
	Voc  uma pessoa incrvel  Steve a abraou com mais fora.
	Por qu? Por que eu sou uma pessoa incrvel?
	A sua maneira de encarar a vida, a sua preocupao com os garotos... Voc  muito altrusta. E altrusmo hoje em dia no est muito em moda.
Nairne tocava as costas de Steve. De repente, ela segurou-lhe o pescoo e puxou-lhe a cabea para baixo.
	O que  que est fa...
Ele no teve tempo de terminar a frase. Nairne beijava-lhe a boca com sofreguido.
Steve estava rgido. Mas Nairne no se apercebia daquela rigidez. Continuava a beij-lo com loucura.
	No faa isso. Nairne, voc no precisa...
E foi a vez de Nairne abra-lo com fora. Steve, que tentara se afastar, enfiou as mos nos cabelos sedosos e gemeu. Ele no se continha mais. No. Ter Nairne to excitada em seus braos o fazia perder o controle. O fazia se esquecer do passado e no lembrava que existia um futuro que poderia lhe trazer muita dor. S o presente importava. E o presente se chamava Nairne...
	Voc mexe com todos os meus sentidos.  Ele falava contra os lbios dela.  Voc me faz sentir como um adolescente... Um adolescente...
Quando Steve abriu-lhe a blusa e comeou a acarici-la com mais intimidade, Nairne delirou. Parecia que Steve conhecia todo o seu corpo, todas suas fontes de prazer.
Porm, quando estava retirando-lhe o jeans que usava, Steve parou.
	No, eu no posso continuar com isso... No posso...
	Por que, no?  ela sussurrou.
	Por que est errado.
	Errado? No, no est errado, Steve  Ela tentava beij-lo de novo, mas Steve se afastou.
	Desejo muito voc, Nairne. Muito mesmo. E sei que voc tambm me deseja. Mas no podemos continuar com isso, no podemos fazer amor. Sei exatamente como vai se sentir depois. Culpada. Arrependida. E vai me odiar. Voc no  do tipo de mulher que se entrega a um homem apenas por desejo. Voc tambm precisa entregar o corao. E seu corao no lhe pertence. Ele pertence a Rory.
Rory!
Nairne sentiu um frio imenso percorrer-lhe todo o corpo.
Desde que Steve chegara com Kilty de Inverness, no tinha sequer pensado uma vez em Rory. Como aquilo poderia ter acontecido?
O momento que ela tanto temia havia chegado.
E precisaria enfrent-lo com coragem.
	No, voc est enganado. Apesar de no imaginar que isso pudesse voltar acontecer comigo um dia, sinto-me uma mulher livre. Livre do passado, de tudo o que me aconteceu.
Para mim Rory hoje  apenas uma lembrana, uma doce lembrana. Meu corao hoje pulsa por voc, e sei que po deria vir a am-lo se me desse alguma chance. O que sinto por voc no  apenas desejo.
	Se fosse possvel para mim voltar a amar, minha que rida, no tenha dvida que a mulher escolhida seria voc. Mas...  Steve acendeu a luz do quarto.  Voc merece muito mais do que eu posso lhe dar. Jamais conseguiria me relacionar com algum de novo.
Nairne olhava para Steve sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. Ele estava sofrendo muito.
	Esse  o preo que tenho que pagar por tudo o que me fizeram. Nunca vou superar o que me aconteceu. Nunca.
Alguns segundos se passaram e o silncio se tornou muito pesado.
	Bem, eu vou dormir, Steve. Voc est mesmo planejando viajar amanh?
	Tenho que voltar para Londres. Ficar aqui seria um grande erro.
	Ele precisa de voc, Steve. E eu... eu tambm preciso muito de voc...  Nairne fazia de tudo para no chorar.  A que horas pretende sair?
	As seis.
	Ento vejo voc logo cedo. Servirei o caf da manh s cinco e meia.
Nairne no esperou por mais nenhuma palavra de Steve. No queria que ele a visse chorando.

CAPITULO XII
	Ele j foi embora?
Nairne, ao ouvir a voz de Kilty vindo da porta da cozinha, prendeu a respirao. Colocando sobre a pia a esponja com a qual estivera lavando a loua, voltou-se para o garoto e ficou penalizada com o que viu. Kilty estava transtornado.
	J. Ele j foi embora  ela respondeu devagar.
	Eu... eu pensei que...  O garoto disse, embargado pela emoo.
	Eu sei.  Nairne se aproximou de Kilty e colocou o brao sobre os seus ombros. Eu tambm, eu tambm pensei que Steve fosse ficar mais uns dias.
	Voc gosta muito dele, no ?
Nairne no tentou disfarar seu sentimentos:
	Muito. Muito mais do que eu deveria. E gostaria muito que ele tivesse ficado. Mas Hazel o feriu profundamente. No o odeie.
	Eu no o odeio, Nairne.  Kilty tinha os olhos cheios de lgrimas.  O que eu queria entender  como minha me pde fazer isso com ele. Como? Como ela pde t-lo ferido tanto? Essa no era a maneira que ela agia com as pessoas.
	No, no era mesmo.  Nairne sentiu um arrepio percorrer-lhe corpo.  Hazel sempre foi muito correta com todo mundo. Mas ningum nunca vai saber o que passava em sua mente... ou no seu corao, naquela poca.
Por longos segundos, Nairne e Kilty ficaram calados. Parecia que a dor que sentiam os unia mais que nunca. Finalmente, aps um longo suspiro, ela virou-se para continuar o que estivera fazendo. Foi neste instante que viu o envelope branco sobre o peitoril da janela.
Ela pegou o envelope e disse ao estend-lo ao garoto:
	Eu tinha me esquecido, Steve deixou isso para voc.
	Para mim?  Kilty tremia ao pegar o envelope.  O que tem dentro dele?
	No tenho a menor ideia.  Nairne balanou a cabea em negativa.  Talvez uma carta.
Nairne tentou sorrir para o garoto e achou melhor que ele abrisse o envelope quando estivesse sozinho. Ento, sugeriu:
	Por que no vai at a sala de visitas? Tambm tenho que limpar o cho da cozinha. Se precisar de mim  s chamar.
Ao dizer que desconhecia o contedo do envelope, Nairne no mentira. Apenas sabia que ele no continha dinheiro. Antes de sair, Steve lhe dissera que abriria uma conta para Kilty no banco de Glencraig e pedira-lhe que dissesse ao garoto que fosse at l para assinar os papis. Tambm dera a ela seu endereo em Londres e lhe dissera que poderia comear com o processo de adoo imediatamente.
De repente Nairne lembrou-se da expresso do rosto de Steve quando j estava dentro do carro para partir e...
No! Ela no podia e no queria lembrar-se da frieza daqueles olhos que tanto amava. Antes de partir Steve no apenas parecia estar tirando-a definitivamente de sua vida, mas parecia tambm estar abandonando a prpria vida. Fora triste demais. Insuportvel!
	Tudo bem, eu vou para a sala  o garoto concordou e saiu da cozinha.
Nairne, ento, terminou de lavar a loua e logo comeou a limpar o cho.
	Nairne!
O chamado de Kilty era rouco, desesperado. Ela que, de joelhos, limpava uma mancha no cho, levantou-se.
Neste instante, o garoto entrou na cozinha, escorregou nos ladrilhos molhados e caiu.
	Voc se machucou?  Nairne perguntou preocupada ajudando-o a levantar-se.
	No, acho que no.  Kilty estava com o rosto banhado em lgrimas.
	Mas voc est chorando.
	No  por causa do tombo.
	 por causa do contedo do envelope?
	, sim. E uma carta. Uma carta da minha me.
	Uma carta da sua me?
	A carta que ela escreveu para Steve depois que ele foi para Londres. Leia!
 
	No, Kilty. No posso ler essa carta. Carta  algo muito pessoal e...
	Eu insisto que leia. S assim voc vai entender tudo o que aconteceu.
Nairne viu que no poderia se recusar em atender aquele pedido. Alm das lgrimas, Kilty estava muito alterado.
	Nairne, por favor, leia.
Ela pegou a carta da mo do garoto. Era uma carta curta escrita com a letra de Hazel; uma letra arredondada, que Nairne conhecia muito bem. Nela Hazel terminava o relacionamento que tivera com Steve e confessava-lhe que na verdade amava e sempre havia amado Hugh.
Nairne leu duas vezes o trecho que dizia:
 Eu soube disso assim que o vi se aproximar, com passos largos, decididos, vindo da pescaria. Sinto muito, Steve. Acho que estava me sentindo muito solitria. A voc apareceu e...
	Voc no percebe, Nairne?
	O qu?
Kilty retirou-lhe a carta da mo e leu:
	Eu soube assim que o vi se aproximar, com passos largos, decididos, vindo da pescaria.
	Meu Deus...  As pernas de Nairne amoleceram e ela apoiou-se na parede.
	E agora, Nairne? O que vamos fazer?
	O que vamos fazer?  Ela, confusa, balanou a cabea
de um lado para outro.  No sei o que vamos fazer Kilty... Mas deveramos ter imaginado. Sua me no era mulher que fizesse mal a algum...
	Agora eu entendo o comportamento dela. Minha me no quis feri-lo e acabou sofrendo muito. Disso tenho absoluta certeza.  Kilty fechou os olhos.  Oh, Nairne, como ela se sacrificou...
	E... sua me fez um grande sacrifcio.
	No envelope, Steve escreveu um bilhete me dizendo que nunca na vida se separou desta carta. Agora queria que ela ficasse comigo.
	Por qu ser que ele fez isso?
	Para que eu soubesse que nunca mentiu sobre o que aconteceu entre ele e minha me.
	Steve nunca poderia imaginar que essa carta...  Nairne deu um profundo suspiro.  Kilty, agora ns precisamos agir da maneira certa.
	Eu sei. Mas fazer o qu?
	Venha.  Nairne segurou a mo do garoto e o levou at a sala. Os dois sentaram-se lado a lado.  Voc agora vai ter que tomar uma atitude.
	Mas no sei qual atitude tomar.
	Escreva uma carta e explique tudo a Steve. E remeta a carta como encomenda especial para que chegue em Londres antes dele.  Nairne levantou-se para pegar papel e uma caneta de dentro de uma gaveta.	,
	Mas o que eu vou escrever?
	Tudo o que o seu corao lhe ordenar, Kilty. E tem que ser agora. A  s mandar a carta e esperar. Sei que no esperaremos por muito tempo.
Nairne, porm, estava errada. Muito errada. E agora sen-tia-e uma verdadeira imbecil. E ela que havia imaginado que naquele dia mesmo Steve iria lhe telefonar acusando o recebimento da carta. Depois que Kilty voltara do correio, segundo a segundo, ela ficou esperando que o telefone tocasse. E o telefone no tocou. Por volta da meia-noite, triste e desiludida, resolvera ir para a cama. E havia ficado l a madrugada inteira pensando, sofrendo muito.
Na manh seguinte, quando Kilty j estava indo para a escola, Nairne o consolou:
	No se preocupe, seu pai vai telefonar ainda hoje.
Mas Steve no telefonou. Nem naquele, nem nos dias que se seguiram.
	O jeito  eu me conformar  Kilty havia dito uma noite antes de ir dormir.  Ele nunca vai mudar.  muito tarde para mudanas...
Nairne ouviu aquelas palavras e acabou concordando com Kilty.
Duas semanas se passaram desde o dia que Steve havia partido. Nairne j tinha perdido todas as esperanas. Ele fora um raio de luz que aparecera para iluminar-lhe solido, mas havia desaparecido. Nunca mais ela o veria. Steve Galbraith fora at a Esccia apenas para cumprir uma obrigao. Agora, nada mais o faria voltar. Nada. Nem o filho. Nem ela.
Era um domingo. Nairne usava uma cala jeans surrada, botas e uma malha de l. Felizmente o frio havia diminudo muito e o sol j brilhava com mais intensidade. Aquele era um dia muito especial. Os garotos retornariam das frias e, antes que fossem para casa, fariam em Bruach uma reunio de planejamento para os novos plantios. Talvez agora houvesse menos desolao naquela casa.
Ela foi para a porta de entrada e ficou esperando o nibus que sempre trazia os garotos para o trabalho. De repente, o nibus surgiu. Nairne abriu um largo sorriso.
Instantes depois, os garotos desciam para abra-la e diziam que tinham sentido muitas saudades.
	Eu tambm senti muitas saudades de vocs. Agora podem ir para a cozinha. Fiz um caf da manh super especial: tem torradas, pezinhos, frutas, leite, suco e ovo com bacon para todos.
Os garotos correram para o cozinha. S ento o sr. Webster se aproximou dela.
	Como tem passado, Nairne?
	Muito bem. E agora vou ficar melhor: senti muita falta dos garotos.
	E o Kilty? Melhorou?
	Melhorou, sim. - Nairne no queria falar a respeito de Kilty.
	Ele  um bom garoto.  O sr. Webster conversou mais um pouco com ela. Depois despediu-se e entrou no nibus.  Vejo voc mais tarde.
Nairne olhou para o relgio preocupada. Kilty sara bem cedo para fotografar e dissera que estaria em casa por volta das dez. E j eram dez e meia.
	Bem, ele tambm disse que iria dar uma passadinha no tmulo da me... Acho melhor ir falar com os garotos, depois eu saio para procurar Kilty...
Nairne olhou para o cu. Instantes atrs, quando falava com o sr. Webster, tivera a ntida sensao que ouvira um barulho de helicptero. E agora...
Mas era mesmo um helicptero que se aproximava. E estava descendo. E parecia que ia aterrisar no terreno ao lado da sua casa. Mas aquilo era loucura. A menos que o piloto tivesse se sentindo mal e precisasse de ajuda.
Nairne ficou olhando a manobra de aterrissagem.
O helicptero desceu. O piloto desligou o motor e abriu a porta.
	Steve...
Nairne no conseguia se mexer. Devagar, Steve abriu um pequeno porto que separava as duas propriedade e se aproximou dela.
	Ser que eu no mereo um sorriso? Ser que s porque eu me comportei de uma maneira deplorvel eu no mereo um abrao?
	Eu...  A emoo e Nairne era tanta que ela temia desmaiar.
E foi Steve quem a abraou.
	Quase ia cometendo o maior erro da minha vida. S agora percebi que tinha me apaixonado por voc, Nairne. E sei que no posso mais viver sem voc. Ser que  tarde para sermos felizes?
	Oh, Steve, rezei tanto para que viesse quando Kilty lhe mandou a carta...
	Kilty...  Ele se afastou de Nairne.  Onde est o meu filho?
	Foi fotografar e depois ia fazer uma visita ao tmulo da me. Ele est louco para v-lo.
	Eu tambm estou louco para ver o meu filho. Vou at o cemitrio. Voc me acompanha, meu amor?
	No, eu os aguardo aqui. Os garotos esto comendo na cozinha.
. Eles voltaram?
	Acabaram de chegar. Temos uma reunio.
	Vou construir nas minhas terras o que sempre desejei. Esses garotos tero muito trabalho daqui para frente.
	Voc vai construir o alojamento para montanhistas?
	Vou. Garanto que daqui um ano o mundo inteiro vai querer passar frias em Craigend.
	Que notcia maravilhosa, Steve.
	Nunca mais vou sair de Glencraig, minha querida. Pode contar com isso.
Controlando a emoo, Nairne fizera a reunio com os garotos que agora j tinham ido para casa.
Aps enxugar e guardar o ltimo prato, ela colocou uma chaleira no fogo. Seus pensamentos, porm, estavam longe dali. Nairne imaginava o encontro de Steve com Kilty. O garoto deveria estar muito feliz. Afinal havia esperado muito a chegada do pai.
Ser que realmente Steve havia entendido que deveria esquecer o passado e viver uma outra vida? Tudo indicava que sim. Ele parecia mais tranquilo, as feies mais suavizadas e at havia remoado.
O barulho da porta da frente sendo aberta fez com Nairne percebesse que ficara um bom tempo ausente. Ela virou-se. Steve, encostado no batente da porta da cozinha, a observava.
	Onde est Kilty?  ela perguntou meio constrangida.
	Ele resolveu fazer mais umas fotografias.  Steve se aproximou de Nairne e a beijou na testa.  Kilty pediu que eu lhe entregasse isso.
Ela pegou o envelope que Steve lhe estendia.
No estou entendendo...
O envelope que Nairne tinha nas mos, com a letra de Kilty, estava endereado a Steve.
	Abra  ele pediu.
	Mas essa  a carta que Kilty lhe mandou.
	A carta nunca foi enviada a mim, Nairne.
	Kilty me disse...
	Mas ele no me mandou. E pediu que eu a lesse na sua presena.
	Quer dizer, ento, que voc ainda no leu a carta?
	No. E posso lhe garantir que estou muito curioso para saber o contedo dela.
	Voc no sabe mesmo o que est escrito aqui?
	Embora ela esteja endereada a mim, s vou l-la agora. Prometi ao meu filho.
	Mas ele nem chegou a fechar o envelope.
	Pois ...
	Ento, por favor, leia a carta. Sei exatamente qual  o contedo dela.
Steve sentou-se e Nairne foi preparar o caf. Depois de servir uma xcara para Steve, ela tambm sentou-se.
O tempo que Steve ficou lendo a carta de Kilty pareceu uma eternidade para Nairne.
	Quer dizer ento que Hazel...  ele disse baixinho , Hazel mentiu para mim...
	Mentiu. E ela fez tudo por causa do acidente que Hugh sofreu.
	Ele nunca mais voltou a andar?
	No, nunca mais. Passou o resto da vida numa cadeira de rodas.
	O acidente aconteceu...
	O acidente aconteceu no barco no dia antes dele voltar.
Houve uma tempestade. Hugh caiu e teve um problema srio na medula. Suas pernas ficaram paralisadas.
Um longo silncio caiu entre os dois.
	Kilty percebeu a mentira quando leu a carta que ela lhe enviou. Hazel nunca poderia ter dito que Hugh chegara
com passos largos e decididos. No, Hugh voltou carregado por outros pescadores.
	Que tristeza...
	Hugh era uma pessoa fantstica. Hazel jamais o magoaria. No depois de v-lo daquele jeito. Eu sempre soube que ela era uma grande mulher.
	 verdade... Mas Nairne, isso tudo ficou no passado.
Quando decidi voltar para c foi por sua causa e por causa do meu filho. Quando cheguei em Londres tive a sensao que tinha deixado parte de mim aqui na Esccia. No incio fiquei temeroso em voltar, mas depois... depois no aguentei mais de saudades. Quero compartilhar minha vida com voc, quero compartilhar a minha vida com Kilty. Prometo que vou faz-los muito felizes.  Steve se levantou e puxou Nairne devagar.  Me d um abrao.
Os dois ficaram abraados por um longo tempo.
	Voc est chorando.  Ele beijou-lhe os olhos.  Por qu?
	Estou me sentindo muito feliz.
	Voc se casa comigo, Nairne? Eu te amo tanto...
A reposta dela foi um longo beijo apaixonado.
De repente, um flash iluminou a cozinha.
	Essa foto vai ficar maravilhosa!  Kilty exclamou radiante.

EPLOGO

Seu noivo est l embaixo. Voc j 'viu como ele est lindo? Parece um prncipe  Kyla entrou no quarto e deparou-se com Nairne vestida de noiva.  E voc... voc parece uma princesa...
	Gostou do vestido?  Nairne perguntou meio insegura.
	Se eu gostei? Eu adorei!
	Mame, alm de excelente pintora, tambm  uma excelente costureira. Imagine... fazer esse vestido sozinha.
	Ela e o papai esto l na sala conversando com o seu futuro marido. Mas voc no respondeu  minha pergunta:
j se encontrou com Steve?
	No. Combinamos que s vamos nos encontrar na igreja. D azar o noivo ver a noiva antes do casamento. Voc sabia que...  Uma batida na porta interrompeu as palavras de Nairne.
	Vou ver quem est a fora.
	Posso entrar?  Kilty perguntou sorrindo quando Kyla abriu a porta.
	Mas  claro que sim.
O garoto entrou no quarto com um buque de margaridas arranjadas de uma maneira muito delicada.
	Papai mandou lhe entregar essas flores...
Emocionada, Nairne pegou o buque e leu o bilhete que estava com ele:
Para a mulher mais maravilhosa do mundo. Para a minha alma gmea.
	No, voc no vai chorar agora. Se chorar, vai estragar toda a maquilagem...  Kyla a alertou.
	No, eu no vou chorar  Nairne conseguiu conter as lgrimas.  Obrigada, Kilty.
	De nada, Nairne, agora vou voltar l para a sala.
	Certo...
Assim que Nairne voltou a ficar sozinha com a irm, comentou:
	Steve  uma pessoa muito sensvel...
	Ele est louquinho por voc.

	E eu estou louquinha por ele  Nairne levou as margaridas at o rosto.  Quando o conheci, no imaginei que...
	Nem eu  a irm a interrompeu.  Quando o conheci no pensei que um dia vocs dois pudessem vir a ficar juntos.
	Adam vai lev-lo para a igreja?  Nairne perguntou  Kyla.
	Vai, sim. E j estamos de sada. Papai e mame vo com voc.
	Meu Deus...
	O que foi Nairne?
	Estou pensando em Rory...
	No deixe que nada a torne infeliz no dia de hoje, Nairne... Rory foi um homem maravilhoso e, esteja onde estiver, agora sorri para voc.
	Ser?
	Mas  claro que sim, querida. A vida continua e voc merece toda a felicidade do mundo.
De braos dados com o pai, Nairne entrou na igreja. No altar, Steve sorriu maravilhado. Ela, ento, elevou seus pensamentos a Deus e agradeceu por tudo o que a vida lhe dera.

FIM
